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Rui Cernadas: não há receitas mágicas…
DATA
01/08/2012 06:03:03
AUTOR
Jornal Médico
Rui Cernadas: não há receitas mágicas…

A presença de médicos de família em áreas deficitárias, que possa realmente produzir uma distribuição mais equitativa pelo país, é o tema desta crónica... Mas.... O que poderá levar, actualmente, os jovens médicos até lá?

 

rui_cernadas.jpgA informação é tanta que já ninguém consegue "digerir" o quanto se vai publicando, cá dentro e lá fora.

Mesmo na chamada leitura mais séria, basta ver por exemplo, o que o Professor Marcelo Rebelo de Sousa nos costuma sugerir e apresentar aos domingos à noite, na televisão, para se aquilatar da enorme dificuldade que se tem hoje em manter actualização e abrangência "culturais".

O que tem algo de trágico num país que era campeão do analfabetismo e que por essa via e pela da igualmente esquecida e tremenda guerra colonial, foi ostracizado por uma Europa muito rica e evoluída e descomprometida numa cenário de guerra fria e sequelas...

Mas veio a Revolução e a integração portuguesa nessa Europa que vai crescendo, em número de países, de problemas, de falta de valores e de empregos, e de crise financeira!

O Eurostat acabou de publicar os dados relativos a 2009 sobre o PIB per capita das regiões portuguesas, comparando-o com o da União Europeia.

E o retrato, ou a pintura, volta a "borrar-nos" de vergonha, com 80% da riqueza média comunitária para a riqueza média por habitante em Portugal.

Em boa verdade, até dá para ficar com dúvidas, dado que entre tantos pobres e indigentes, por um enorme lado e algumas fortunas fabulosas, por outro - este, estreitíssimo, sobra uma classe média em declínio e uma descrença a roçar o miserável.

Mas não foi sobre isso que li, sobre o que vos quero aqui hoje falar... Tampouco do facto da região norte de Portugal continuar a ser a região mais pobre do país, com um PIB per capita de 64% da média europeia e bem abaixo do valor médio nacional.

A presença de médicos de família em áreas deficitárias, que possa realmente produzir uma distribuição mais equitativa pelo país, é um bom tema para esta crónica.

Esses défices podem resultar da pressão populacional, em zonas fortemente urbanizadas e com procura crescente, até em função da média etária desses cidadãos ou, pelo contrário, podem derivar da baixa densidade demográfica e da extensão dos territórios, designadamente em áreas rurais e do interior mais despovoado.

E a questão é essa.

O que poderá levar, actualmente, os jovens médicos até lá?

Claro que os mecanismos da mobilidade podem dar uma ajuda, sendo certo que vamos ter, brevemente, novidades que ajudem ou contribuam para um preenchimento das vagas mais de acordo com as reais necessidades das regiões.

Mas no fundo, a resolução da falta de médico de família a centenas de utentes não radica, exclusivamente, na carência de clínicos.

O trabalho sobre os ficheiros é fundamental, sendo tempo de os sistemas de informação avançarem no sentido desejado. As revisões das listas de utentes são essenciais, mesmo percebendo que os cidadãos podem utilizar o sistema de forma diversificada.

O aumento da eficiência da actividade médica e das unidades funcionais também passa por aqui...

Julgamos importante definir aspectos que urge normalizar, como seja a relação entre a dimensão das listas, por médico, e o número de horas do respectivo regime laboral, 35, 40 ou 42 horas, acrescendo à confusão o "direito" ao pedido de redução do número de horas em função da idade.

A questão dos próprios concursos para os novos especialistas faz sentido que possa ser reformulado.

Desde logo, exigindo-se que todo os procedimentos sejam agilizados e acelerados, eventualmente na base dos mapas anuais. Depois, mantendo a orientação na colocação por ACES, como modo de privilegiar uma visão integrada e organizada dos cuidados primários e das dificuldades em recursos humanos.

Não podemos ignorar que atractividade da carreira de MGF é notória, quer sob a perspectiva salarial de curto e médio prazo, quer sob a ideia duma estabilidade mais precoce no mercado de trabalho, quer, enfim, sob a mera noção de empregabilidade!

Infelizmente, não há receitas mágicas.

Os cuidados de saúde primários, como o SNS numa visão mais abrangente, têm um contingente enorme de problemas e de aflições que perduram há anos, ou décadas.

Falar do seu diagnóstico é redundante.

Pedir atenção para essas questões pode ser útil e ajustado.

Mas, exigir pressa na sua resolução, é tão ridículo, quanto injusto e desnecessário.

Sobretudo porque, mesmo para os mais distraídos, o país atravessa uma grave crise financeira e de controlo apertado da despesa.

O que não impede, obviamente, que se adeqúe o dinheiro aplicado aos resultados pretendidos.

Mas não vai chegar para tudo, nem ao mesmo tempo.

Não é fatalismo.

É uma fatalidade.

 

Rui Cernadas

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