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Lúcio M Almeida: Saúde Pública: evidência e prática no século XXI
DATA
08/10/2012 04:52:29
AUTOR
Jornal Médico
Lúcio M Almeida: Saúde Pública: evidência e prática no século XXI

Nos próximos dias 25 e 26 de outubro irá decorrer, em Coimbra, o III Congresso Nacional de Saúde Pública, sob o lema "Da evidência à prática". O evento destaca-se como um dos raros fora de discussão e de partilha entre profissionais de saúde pública.

Nos próximos dias 25 e 26 de outubro irá decorrer, em Coimbra, o III Congresso Nacional de Saúde Pública ("Da evidência à prática"). Organizado pela Administração Regional de Saúde do Centro, Direção-geral da Saúde, Escola Nacional de Saúde Pública/UNL, Instituto de Higiene e Medicina Tropical/UNL, Instituto Nacional de Saúde Dr Ricardo Jorge e Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, destaca-se como um dos raros fora (ou, mais portuguesmente, "fóruns") de discussão e de partilha entre profissionais de saúde pública.

Profissionais de saúde pública que deverão ser entendidos como todos aqueles que têm na saúde do público um objetivo comum e concertado com os restantes atores do sistema de saúde - e não apenas aqueles que exercem a sua atividade em serviços operativos de saúde pública.

A Saúde Pública é, acima de tudo, uma prática. Prática que visa obter ganhos em saúde, mediante ações concertadas de promoção e proteção da saúde que têm na comunidade e nos seus recursos parceiros fundamentais. Não se aprende através de tratados académicos mas antes mediante a integração do conhecimento científico multidisciplinar com o exercício profissional do dia-a-dia.

Lawrence W. Green, académico norte-americano detentor de um curriculum que inclui o exercício de funções em organismos de saúde pública como os CDC ou o gabinete federal de informação e promoção em saúde, sintetizou, numa frase, a necessidade de integração da evidência gerada pela prática com a prática baseada na evidência: "If we want more evidence-based practice we need more practice-based evidence".

A prática é, por si só, geradora de evidência que pode e deve ser valorada cientificamente. Note-se que a valoração só implica a sua valorização após um criterioso escrutínio científico e metodológico.

Qualquer profissional de saúde pública sabe que a realidade do "terreno" não se compadece com a existência prévia de estudos experimentais, antes obrigando à utilização do conhecimento disponível no momento da tomada de decisão. Conhecimento que nem sempre reflete um grau de evidência científica tão elevado e que, muitas vezes, não é, sequer, garante duma fundamentação tão robusta quanto desejado.

A tomada de decisão no mundo "real" tem caraterísticas próprias, que incluem o constrangimento temporal e o sentido de urgência, bem diferentes do ambiente académico-investigacional.

Não se quer com isto afirmar, bem pelo contrário, que a prática deve desprezar a evidência científica disponível. Antes a prática, enquanto geradora de evidência, é passível de ser integrada no corpo de conhecimento científico da Saúde Pública (veja-se o caso dos rastreios).

Uma das caraterísticas que distingue os profissionais de saúde pública de outros profissionais de saúde é a sua heterogeneidade em termos de setor de formação. Daí que alguns autores se refiram a este grupo como um "movimento profissional" - distinto na sua formação mas unido no objetivo comum de promover ganhos em saúde das populações.

Esta heterogeneidade profissional decorre da "heterogeneidade" (multifatorialidade) dos determinantes de saúde que, como sabemos, são primordialmente de âmbito social. Ao integrar profissionais oriundos de diversos setores, que não exclusivamente do setor da saúde, pretende-se abordar de forma efetiva, porque específica mas integrada, os diversos determinantes de saúde.

Nessa medida, a Saúde Pública é intrinsecamente "anti-corporativista" porque integradora de todos os parceiros (internos e externos) da Saúde enquanto resultado pretendido.

Na generalidade dos sistemas de saúde observa-se, através do sentir e da prática dos seus profissionais e respetivos serviços, uma fronteira entre os cuidados de saúde individualizados e aquilo a que poderemos chamar "cuidados de saúde pública".

Importa, pois, contrapor sinergicamente os cuidados de saúde diretos e individualizados com os cuidados de saúde pública, não esquecendo que, não obstante o âmbito populacional destes últimos, também eles intervêm sobre indivíduos inseridos em comunidades.

Por outro lado, a veiculação de informação cientificamente válida e formalmente ajustada aos diversos públicos-alvo é uma estratégia, de reconhecida efetividade e de custos reduzidos ou mesmo negligenciáveis, que vai ao encontro do principal problema impactante dos sistemas de saúde: as doenças crónicas, associadas a estilos de vida.

Cidadãos mais informados na saúde e na doença são cidadãos mais competentes na autogestão dos determinantes de saúde e de estados banais de doença e, simultaneamente, consumidores mais criteriosos dos recursos de todos.

A capacitação e a literacia em saúde emergem, pois, como um dos objetivos da Saúde Pública do século XXI. Mediante o acesso democrático a informação relevante, é permitido ao utente assumir o papel de recurso do sistema de serviços de saúde ao invés de mero utilizador dos serviços.

Já a cidadania em saúde traduz-se na participação cívica individual, de forma direta ou indireta, em decisões que afetam a saúde de todos, como é o caso de políticas e decisões "macro" em saúde.

Os órgãos de comunicação social, em conjunto com os profissionais de saúde pública, são atores fundamentais no que diz respeito à capacitação em saúde e à cidadania em saúde.

Todos somos poucos para cumprir o desiderato civilizacional de assegurar as condições necessárias à saúde e bem-estar dos indivíduos, através de esforços organizados. Esforços que, tendo resultado numa espantosa melhoria dos indicadores de saúde em todo o Mundo, se traduziram num avanço civilizacional sem precedentes que inclui a felicidade como uma das dimensões da saúde integral e, consequentemente, como objetivo de saúde.

Pensar saúde implica pensar os serviços de saúde pública e os seus profissionais. Pensar para intervir em prol da saúde de todos.

É esse o pilar da Saúde Pública e é nele que deve assentar a motivação e a auto-estima dos seus profissionais.

 

Lúcio Meneses de Almeida
Membro da Direção do Colégio da Especialidade de Saúde Pública da Ordem dos Médicos

 

 

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