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Mário Moura: será verdade?
DATA
18/03/2015 16:00:34
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Mário Moura: será verdade?

[caption id="attachment_12919" align="alignnone" width="300"]MarioMoura Mário da Silva Moura - Presidente Honorário da APMGF - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Terminado o 32º Encontro Nacional de MGF, realizado no Estoril pela Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), entranhou-se-me no espírito uma dúvida, que por estes dias me tem atormentado... E que não consigo dissipar.

No evento, como é hábito, encontrei uma quantidade enorme de médicos jovens, uns no internato, outros já na carreira. Reencontrei e abracei médicos de família mais antigos e experientes – a maioria com funções directivas ou nos vários graus da carreira. E fui, aqui e ali, trocando impressões sobre os vários e candentes problemas que atormentam o País, particularmente os nascidos da já requentada crise social, política e ética – e que, mais “na carne” atingem a Saúde, especialmente os cuidados de saúde primários (CSP). Conversas esparsas, de corredor, tidas nos intervalos de debates acalorados, conferências e até discursos de responsáveis, todos impregnados de ansiedades, medos, desgostos, falta de esperança e desilusão, que acrescentaram amargura às minhas recordações e vivências de mais de seis décadas de profissão; recordações de luta, de resistência e de grande vivacidade construtiva.

Mas será verdade? – Interrogava-me, indo buscar à memória algumas dessas conversas, boatos, testemunhos e até estudos e relatórios.

Sempre fui de opinião de que a admissão para as faculdades de Medicina estava eivada de um erro com consequências graves: o de se privilegiar apenas a nota da licenciatura, erro esse que limita o acesso a esta bela profissão a alunos excepcionalmente aplicados e – pelo menos – de boa memória.

Nos primórdios das “carreiras médicas”, chegados ao fim do curso académico, era inevitável que a maioria dos futuros médicos tivesse como primeira escolha especialidades predominantemente técnicas, que não se centravam na relação personalizada, “cara a cara”, médico/paciente – como acontecia na clínica geral. Esgotadas as vagas das especialidades hospitalares – que eram, porventura até, melhor remuneradas e de maior prestígio social – restavam, para os últimos, as de clínica geral. Ninguém procurava saber se os candidatos a “senhor doutor” reuniam capacidade de “entrega aos outros” ou facilidades de diálogo afectuoso com os futuros pacientes.

Foi acirrada a luta que se travou ao longo de décadas para se reconhecer à Clínica Geral o lugar que já era seu, de “porta de entrada” do sistema de saúde, atribuindo-se-lhe o papel essencial de Medicina de primeiro contacto, capaz de resolver 80% das queixas dos nossos doentes.

Como também foram necessárias décadas para que o Clínico Geral passasse a ser designado de “Médico de Família”, isto é, o médico preocupado com a “circunstância envolvente” do doente, numa perspectiva biopsicossocial.

E ainda mais tempo… Para se teorizar para que nesses CSP se concedesse primazia à prevenção e à educação para a saúde.

Os processos organizativos do Serviço Nacional de Saúde foram surgindo, impondo-se ao país, a ponto de o SNS ser hoje considerado a principal conquista da “Revolução de Abril”, tendo atingido um apuro que o posiciona como um dos melhores do mundo.

Mudaram os governos e as orientações políticas, mas o SNS manteve a sua marcha, granjeando prestígio nacional e internacional pela qualidade que lhe é reconhecida.

Era inevitável que com todas as mudanças ideológicas, florescesse igualmente uma medicina privada pujante (e lucrativa!) em competição ou complementaridade com o nosso SNS.

Todas estas ideias e memórias me surgiam em turbilhão nos espaços mortos do encontro, acompanhadas da tal pergunta – “será possível?”, que eu arrumava de imediato com uma enérgica negativa.

O número de médicos no país foi aumentando e a exigência das populações por mais atendimentos médicos cresceu igualmente, face à maior oferta. A organização foi tentando resolver os problemas que iam surgindo para satisfazer essas solicitações, fazendo crescer em dimensão e qualidade a nossa rede hospitalar ao mesmo tempo que reformulava os CSP.

Precisamos de médicos, grita-se nos “media”; as consultas estão terrivelmente atrasadas o mesmo acontecendo com as intervenções cirúrgicas – envolvendo, por vezes, risco de vida –, denuncia-se nas televisões.

Em resposta, a tutela coloca nos centros de saúde médicos cuja formação suscita suspeitas e aumenta todos os anos o número de vagas nas universidades… Que por sua vez denunciam que não existe capacidade instalada para formar tanta gente.

Não há formadores em número suficiente, clamam os dirigentes… Acenando com o número de reformas antecipadas e da emigração dos descontentes, que vieram agravar uma situação já de si desesperada!

Hoje enfrentamos uma situação paradoxal: ao mesmo tempo que faltam médicos, temos tantos futuros clínicos em gestação que em breve seremos confrontados com um novo problema: o do desemprego médico!

Foi este o problema que mais me atormentou nos momentos “parados” do Encontro Nacional. Será possível, questionava-me amiúde, angustiado, que este excesso seja deliberado e tenha como objectivo obter mão-de-obra médica barata?

Fará tudo isto parte de um plano de batalha ideológica?

Confesso que tenho alguma dificuldade em acreditar que esta interpretação, perfilhada por alguns, esteja certa. Mas a dúvida, essa, não me abandona. Já em casa, continuo a interrogar-me: será possível que a hipótese reflicta a realidade e se esteja, por convicção ideológica, a minar o nosso Serviço Nacional de Saúde?

Será que têm razão os que gritam que o actual governo quer privilegiar a medicina privada (lá que ela cresce, cresce)?

Que a ninguém esqueça que o SNS é uma das jóias mais preciosas do nosso processo democrático. Jóia que se colocada em risco todos se devem unir para defender, combatendo qualquer tentativa de a desvirtuar.

E esta dúvida que não me sai da cabeça… Será verdade?

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