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Rui Cernadas: práticas e resultados
DATA
20/03/2015 12:01:28
AUTOR
Jornal Médico
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Rui Cernadas: práticas e resultados

[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Há quem ande distraído e quem ande contraído. Nem sempre pelas mesmas razões, mas às vezes por razões muito próximas. Também tal proximidade, como em outras circunstâncias igualmente víricas, facilita a transmissão e a propagação, alargando contágios e contaminações. É preciso, por isso, aumentar a atenção ao que nos rodeia e manter uma vigília saudável e amiga do cérebro.

Os cuidados primários mantêm, apesar das aparências, um papel de primeira linha na administração do processo assistencial aos cidadãos portugueses. Porém, não basta falar do cartão de utente e do número nacional que consta, a esse título, entre outros números, atrás e à frente, do minúsculo cartão de cidadão, ainda mais pequeno atendendo ao tamanho dos caracteres lá inscritos…

A verdade e mesmo a prática parecem apontar para que quando se comparam recursos humanos, estruturais, investimento e financiamento entre os cuidados primários e os cuidados hospitalares para mundos diametralmente opostos – e dizer, admitir ou defender que é possível, neste cenário, mudar a cultura hospitalocêntrica do país – é quixotesco.

Como quixotesco seria ignorar os muitos cidadãos que contabilizam dezenas de atendimentos por essas urgências hospitalares fora, num sistema que lhes permite entradas sem fim, não passar pelas unidades de cuidados primários em que estão inscritos e que não os informam do quanto custam ao sistema e aos contribuintes.

Mas, o desempenho dos profissionais do sector da saúde continua a ser avaliado de acordo com a ideia de que que boas práticas podem levar a bons resultados. Na realidade, não estou tão certo disso. E muito do que se vê, lê e ouve aponta no mesmo sentido.

Um país envelhecido é para um Estado europeu – de modelo social – um problema acrescido. Desde logo pelo impacto financeiro que resulta do consumo de recursos em saúde e segurança social.

O envelhecimento está associado a uma prevalência crescente de doenças crónicas, que, por sua vez, colocam grandes desafios em sede de prescrição medicamentosa. Desde logo porque a senescência e os seus múltiplos processos biológicos e fisiológicos geram uma maior susceptibilidade à iatrogenia, suscitando questões como a da medicação potencialmente inapropriada, os compromissos ligados às perturbações cognitivas e demenciais ou a falta de cuidadores adequados, todos eles factores potenciadores relevantes.

Grandes desafios que deveriam suscitar uma reflexão serena e transversal no seio da Medicina Geral e Familiar portuguesa. Não a partir da discussão pura dos modelos organizacionais ou dos interesses e das condições dos profissionais de saúde, mas do que deveria ser um verdadeiro processo gestionário das necessidades dos cidadãos e em especial das estratégias a implementar tendo em consideração os resultados em saúde. O que tem muito a ver com a definição, a escolha e os prazos dos indicadores, gerando a oportunidade de indexar esses indicadores a prazos pré-determinados e que permitam medir – medir mesmo – outcomes.

Nos cuidados primários, por exemplo, permitindo, de uma vez por todas, verificar se as intervenções e as práticas, tidas por mais adequadas para os problemas de saúde contratualizados, correspondem ou não ao que delas se imagina, mas que o tempo e o alargamento do período de avaliação garantiria.

As práticas e os resultados devem ter uma relação salutar e transparente. Acreditar que as primeiras conduzem aos segundos, pode ser uma posição de crença.

Mas não é ciência médica.

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