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José Agostinho dos Santos: conhecimento e sabedoria
DATA
20/04/2015 15:00:10
AUTOR
Jornal Médico
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José Agostinho dos Santos: conhecimento e sabedoria

[caption id="attachment_12142" align="alignnone" width="300"]Jose_Agostinho_Santos José Agostinho Santos - Médico de Família - Unidade de Saúde Familiar Dunas, ULS – Matosinhos[/caption]

A Primavera emergente trouxe o sol e este trouxe uma imensa germinação. Com o rebentar da folha, rebentam também algumas reflexões em mim, embaladas pelo tépido zéfiro primaveril. Partilho convosco um pequeno ensaio de reflexão, inspirado pelas vivências que tenho e pelas gentes com quem me cruzo durante a minha actividade clínica.

Ao longo destes meus dias, vou encontrando pessoas conhecedoras e pessoas sábias. Conhecimento e sabedoria são duas esferas distintas. Felizmente, os diferentes idiomas deste mundo dispõem de dois termos (por exemplo, no inglês: knowledge e wisdom) que, apesar de usados como sinónimos na linguagem comum, não têm significado similar: o primeiro busca a representação mais concreta e prática de um fenómeno e o segundo domina o conceito, (mais abstrato, mais vivido e mais intrínseco).

O conhecedor lida com as definições enquanto que o sábio lida com os conceitos. A presença do conhecimento não impede a presença da ignorância enquanto que a presença de sabedoria já tem esse poder, sendo a ignorância o contrário de sabedoria e a inocência o contrário de conhecimento. Finalmente, o sofrimento parece ser a expressão prática da ignorância. Estaremos tão envolvidos em “ter” os conhecimentos que nos esquecemos do mais importante: sermos sábios e transmitirmos essa sabedoria?

Tenhamos como exemplo dois homens distintos e peguemos num tema tão central das nossas vidas como o é a “felicidade”. O homem que domina as 1.001 definições de felicidade pode nunca ser feliz. Já o homem feliz domina o único conceito de felicidade, embora possa não saber a sua definição. É típico deste mundo em que vivemos querer mais e mais conhecimento e encher a mente de informação sem qualquer proveito. É como colocar umas centenas de sementes num campo sem que depois se trate de o regar, cuidar ou vigiar. Já aquele que apenas coloque umas poucas sementes, mas saiba como cuidar do campo, colhe bem mais e melhores frutos. O primeiro homem julgará que por colocar as suas sementes estrategicamente distribuídas em terreno com boas características, terá frutos garantidos. Este mesmo homem tem uma visão permanente das coisas. O segundo homem saberá que nada é permanente e que é a avaliação diária do campo, reconhecendo a impermanência das coisas e o carácter circunstancial dos fenómenos, que trará maior produto. O primeiro sofrerá com a ilusão criada antecipadamente de que teria bons frutos. O segundo aceitará a pouca colheita porque, desde sempre, reconheceu o carácter circunstancial do fenómeno em causa. O primeiro chora por frustração. O segundo chora pela frustração do primeiro. Novamente, o primeiro foi apenas conhecedor e o segundo, sábio. Razão pela qual apenas o segundo é um homem feliz.

Com este exemplo, pretendo atrair a atenção para o provável facto de que o que usamos frequentemente são impressões e categorias produzidas nas nossas mentes sobre as coisas ou fenómenos: são actos da mente, logo são pensamentos que se podem agrupar em representações. Não usamos, na maioria das vezes, as suas verdadeiras realidades, demasiado circunstancionais para poderem encaixar nas nossas representações mentais dominadas pelas ilusões. Desde o primeiro contacto com um determinado fenómeno, a nossa mente multiplica impressões camuflando-o de alguma forma. É como se observássemos um bebé a nascer e o víssemos tal como veio ao mundo. Logo após a nossa primeira observação, os pensamentos somam-se atribuindo qualidades que se multiplicam como peças de roupa sobre o bebé: vai uma fralda, depois uma camisolinha… E umas calcinhas; entretanto, veste-se o casaquinho, depois o capuz, depois da manta… E eis que se passa a desconhecer a verdadeira realidade deste bebé: já todo encoberto por dezenas de peças postas por nós, não conseguimos perceber bem se teve aumento ou perda de peso, se tem alterações de pele, se tem muito ou pouco cabelo… A nossa mente tratou de criar uma carapaça que agora é assumida como "o bebé” (roupa incluída!).

É isto que tendemos a fazer com tudo na vida. Vivemos mais atormentados ou agradados pelas máscaras e disfarces que colocamos nas pessoas e nas “coisas” do que pelas pessoas e “coisas” em si mesmas. A nossa mente produz pensamentos que se podem transformar em máscaras assustadoras (criando aversão) ou agradáveis (levando ao apego)… Como se fora um carnaval permanente! Esta constatação leva-nos a reflectir sobre o conjunto de pacientes que é costume denominar de “difíceis”. Uma categoria, criada por uma interpretação da mente, de um fenómeno ou situação que derivou em classificação mental para esse paciente. Em alguma hipótese, esse paciente “difícil” que reclama sobre um aspecto da unidade de saúde poderá ser aquele que arrisca a vida para salvar três gatinhos encurralados num incêndio. Esta representação de “difícil” não terá certamente em conta todos os aspectos dos fenómenos, das pessoas ou das coisas. No final das contas, apenas poderá criar aversão, levando ao sofrimento tanto do que classifica permanentemente como do que é classificado. E assim se explica a história do sofrimento humano.

Apesar de até conhecermos esta nossa natureza, será que sabemos dela? Quebrar este ciclo de integração de uma realidade estática e permanente segundo os nossos pensamentos poderá ser, talvez, o início da sabedoria. E poderá poupar-nos o sofrimento das ilusões, antecipações ou categorias…

Reconheço que vou sofrendo, fruto desta minha ignorância que luto por banir com sabedoria. A sabedoria e a ignorância não podem coexistir, tal como a luz e a escuridão. Uma anula a outra. Espero estar no caminho de aquisição do insignt, que é como um interruptor para um candeeiro: não garante a iluminação (apenas o botão o pode garantir) mas é condição essencial.

Como se costuma dizer entre nós, já é "meio caminho andado".

Assim é a vida! Bom trabalho!

Saúde Pública

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