Jornal Médico Grande Público

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DATA
20/04/2015 15:55:50
AUTOR
Luís Gouveia Andrade - Médico Oftalmologista no Hospital CUF Infante Santo
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Viver mais e melhor - realidade ou contradição?…

O Mundo Ocidental vê-se, cada vez mais, confrontado com o aumento da esperança de vida dos seus habitantes.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a esperança de vida para a União Europeia (28 países) em 2002 era de 74,5 anos e em 2012 de 77,5 anos. Portugal, felizmente, não se afasta muito destes indicadores. Em 2002 a esperança de vida da população portuguesa era de 73,9 anos e em 2012 de 77,3 anos.

E estes números terão tendência a aumentar.

As questões que se colocam são inúmeras e seria impossível abordá-las todas neste espaço, razão pela qual escolho algumas como convite a uma reflexão.

Uma população com longevidade crescente associa-se a diversos desequilíbrios na pirâmide demográfica. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística, o índice de envelhecimento da população portuguesa aumentou de 103 para 128 idosos por cada 100 jovens entre 2001 e 2011, sendo este fenómeno mais acentuado no género feminino dada a sua maior longevidade.

Ocorreu, em simultâneo, um aumento do índice de dependência de idosos (número de idosos em cada 100 indivíduos em idade activa) de 24,6 para 28,8.

Estes números reportam-nos para outros, como os referentes aos anos de vida saudável, definidos pela Comissão Europeia como o número de anos remanescentes que uma pessoa de determinada idade pode viver sem incapacidade.

Trata-se de um indicador da maior relevância por incorporar não apenas o tempo cronológico de vida mas, também, o conceito de qualidade de vida.

Esse indicador evolui na União Europeia de 62,7 anos em 2010 para 62,1 anos em 2012 e, no caso português, passou de 52,4 anos em 2004 para 62,6 anos em 2012.

Comparando, para Portugal, este indicador com a esperança de vida média inicialmente referida (77,3 anos), podemos assumir que os últimos 14,7 anos de vida dos portugueses ocorrem num contexto de doença, incapacidade e perda de qualidade de vida. É um período de tempo muito longo…

Toda esta análise me parece relevante porque nos coloca perante inúmeras questões de natureza económica, social e ética.

Sendo inevitável que a melhoria das infraestruturas de um país, aliadas a uma Medicina cada vez melhor apetrechada, permite às populações viverem mais anos, é igualmente certo que nem essas infraestruturas nem essa Medicina podem travar a progressiva deterioração das funções biológicas e cognitivas do corpo. Mais do que isso, ao se prolongar o tempo de vida do corpo humano, novas doenças, que anteriormente não tinham oportunidade de se manifestar, surgem agora, colocando novos desafios, exigindo novos meios de diagnóstico e de tratamento. Falamos, entre outras, das doenças degenerativas, das neoplasias, das perturbações mentais.

Como lidar com esta realidade? Obviamente, o caminho tem sido duplo: por um lado, dotar a Ciência de novos meios para detectar e tratar estas condições. Por outro, estruturar e equipar as comunidades de modo a poderem oferecer aos mais idosos companhia, apoio, lazer e carinho, tanto da família, como de outras instituições.

Uma sociedade civilizada, digna desse nome, deve saber respeitar e cuidar dos mais velhos; daqueles que, no seu tempo, as ajudaram a crescer e fizeram delas aquilo que são no momento presente.

Os desafios, nesta matéria, são cada vez maiores por tudo o que foi dito. Uma população mais idosa, não produtiva e mais longeva consome recursos tremendos, obrigando a exercícios orçamentais extremamente delicados. E mesmo assim, como vimos para Portugal, em média um idoso passa os últimos 15 anos da sua vida doente, dependente e com qualidade de vida reduzida.

Estamos perante caminhos que não podem nem devem ser revertidos mas temos de reflectir seriamente sobre os novos modelos de sociedade que estão a surgir. De facto, oferecemos mais tempo de vida mas com uma qualidade longe do ideal, não por não queremos mas por não sermos capazes.

Tornou-se simples prolongar vidas… Mas é infinitamente mais difícil manter essas vidas em patamares de saúde e qualidade que garantam dignidade até ao fim.

Viver mais e melhor é, por isso, um objectivo louvável mas cujas duas faces não evoluem ao mesmo ritmo, trazendo sofrimento, frustração e custos incomportáveis.

De acordo com o Censos 2011, publicado pelo Instituto Nacional de Estatística, em Portugal mais de 1,2 milhões de idosos vivem sozinhos ou em companhia de outros idosos, número este que corresponde a um aumento de 28% ao longo da última década. De facto, de acordo com o Censos 2011, 400.964 idosos vivem sozinhos e 804.577 residem exclusivamente com outras pessoas com 65 anos ou ainda mais velhas, o que corresponde a cerca de 60 por cento da população idosa em Portugal.

Conciliar mais anos com melhores anos passará por todos nós, pela nossa disponibilidade e capacidade de ampararmos aqueles a quem oferecemos vidas mais longas. Em troca, poderemos deles retirar a sabedoria e a experiência acumuladas, o carinho e o tempo de que dispõem para nós.

Viver mais não pode, nunca, significar viver mais tempo doente. Ou só. Ou triste. E esse é o grande desafio dos nossos tempos.

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