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Acácio Gouveia: legalize… what?! – II
DATA
21/04/2015 13:04:08
AUTOR
Jornal Médico
Acácio Gouveia: legalize… what?! – II

[caption id="attachment_13316" align="alignnone" width="300"]AcacioGouveia Acácio Gouveia - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Mel nos lábios, uma espada no ventre
Aforismo chinês

Mas têm razão os defensores da legalização ao afirmarem que há um tratamento diferente entre este tipo de substâncias e as bebidas alcoólicas. Sejamos pragmáticos: mau grado os seus malefícios as bebidas alcoólicas são impossíveis de proibir, como o demonstrou a já citada lei seca dos anos vinte. Mas também é certo que assistimos a uma crescente política de restrições ao seu consumo. O mesmo se pode dizer do tabaco. Sabendo nós, médicos, melhor que ninguém, os danos causados por estas substâncias, pergunta-se: que sentido faz legalizar o consumo de mais tóxicos, quando reconhecemos que os legais (etanol, tabaco e mais alguns) já causam tantos malefícios? Porquê arranjar mais “sarna para nos coçarmos”, mais problemas de saúde pública, a que se seguirão mais regulamentações e intrincadas interdições parciais, tão difíceis de implementar e fazer cumprir?

Bem vistas as coisas, a legalização da canábis vai contra a actual tendência para restringir o consumo do álcool e tabaco, o que é incongruente.

Que sejam os traficantes os mais interessados na ilegalização do seu ramo de negócio é argumento muito difundido, mas difícil de sustentar. Primeiro, não é certo que a actual situação lhes traga mais proventos que o comércio dentro da legalidade. Por um lado, os custos de produção, transporte, comercialização e decorrentes de perdas por apreensões baixariam com a legalização, mesmo tendo em conta os impostos previsivelmente aplicados. Por outro lado, o aumento do número de consumidores, decorrente da legalização e do abaixamento dos preços aumentaria os lucros. Em segundo lugar, promovidos à categoria de respeitáveis homens de negócio, os traficantes só teriam a ganhar em sossego, sem riscos de serem encarcerados, durante dezenas de anos, nalguma prisão de alta segurança dos EUA, ou mortos em rixas com a concorrência. A segurança das suas famílias deixaria de ser uma preocupação. Poderiam viajar livremente por todo o mundo e despedir 90% dos guarda-costas.

Uma vantagem há que reconhecer à legalização de estupefacientes: o fim de tantos homicídios de polícias, magistrados, jornalistas, políticos e mesmo de gente comum apanhada no fogo cruzado. Mas, por esse caminho, e sempre com o fito de evitar mortes e conflitos com os criminosos, vamos também despenalizar o tráfico de seres humanos, de armas e a corrupção? Posto isto, as suspeitas de ligações sombrias ao mundo do crime podemos devolvê-las aos defensores da liberalização. Mas ainda neste capítulo há uma incongruência grave a apontar aos defensores da “liberalização das drogas leves”: Os maiores criminosos mais perigosos e letais encontram-se nos ramos da cocaína e dos derivados do ópio e não no nicho da canábis. Se a ideia é neutralizá-los, então porque não pedem justamente a legalização daquelas substâncias?

Tenta-se também impingir a ideia da quase inocuidade da canábis. Comparar os malefícios dos charros ao das benzodiazepinas é comparar a letalidade de um bacamarte do século XVII com a de uma kalachlikov. Usam-se até, como (fraco) argumento, as propriedades terapêuticas da canábis como álibi para o seu uso dito recreativo. Como se alguém se lembrasse de “snifar” fluticasona para fins lúdicos, ou mandar um chuto de cisplatina, só porque também têm propriedades terapêuticas! Aliás, estamos perante mais uma incongruência dos defensores da legalização das drogas dita leves: por maioria de razão a legalização deveria contemplar os opiáceos, esses sim com indiscutíveis propriedades terapêuticas. Em relação às utilizações terapêuticas da canábis pode dizer-se “muita parra e pouca uva”. Leia-se a propósito o artigo ‘Medical Marijuana for Neurologic Disorders: More Study Needed’ publicado em Fevereiro no Medscape, reflectindo a posição da American Academy of Neurology (AAN). Ainda a propósito desta promiscuidade entre “recreação” e terapêutica, temos aí a espantosa ideia de comercializar charros nas farmácias, que não passa de mais uma tentativa de branquear a imagem de uma substância insalubre. Já agora, porque não guarnecer os balcões das nossas farmácias, entre estatinas e corticóides, com uns macitos de Marlboro ou umas garrafitas de Licor Beirão?

E agora?

“Prior to enacting the new law, it was rare—if ever—that a patient came to the ER with acute marijuana intoxication. But now we have a rise in marijuana intoxication: Paranoia, akathisia, tachycardia, and nervousness are all consistent with an acute intoxication episode.”
Jason Persoff, MD
January 27, 2015
In blog “The hospital leader”

A legalização da cannabis assenta mais em slogans e num bom marketing do que em argumentos sólidos. Uma moda, em suma. Mas uma moda que pegou, apadrinhada à direita e à esquerda. Uruguai e um crescente número de estados dos EUA já enveredaram por esse caminho. Dos “States” chegam-nos ecos inquietantes quanto ao impacto na saúde pública. E relembrando as verdadeiras lições da lei seca dos anos vinte, poderemos antecipar que se os cidadãos estadunidenses se vierem a arrepender do passo que deram, será tarde para arrepiar caminho e a marijuana, estouvadamente legalizada, o será para sempre.

Por cá, esperemos que as barbas a arder dos vizinhos nos indiquem o caminho da sensatez e da prudência em vez de seguirmos modas, só por serem modas.

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