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Rui Cernadas: “a Idade do Ferro”
DATA
21/04/2015 15:00:55
AUTOR
Jornal Médico
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Rui Cernadas: “a Idade do Ferro”

[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

Há quem propague e defenda a ideia de que certos livros só deveriam ser lidos por quem já tem suficiente experiência de vida. E justificam tal princípio com a convicção de que, ou pela natureza das narrativas (palavra agora mais “perigosa”…), ou pelas colorações das emoções transmitidas, ou até mesmo pela natural interpretação pretendida pelos autores, nem sempre os leitores serão capazes de assumir o desafio até ao final das palavras inventadas ou de absorver o sentido das que vão consumindo…

Enquanto leitor, reconheço que livros houve em que não me senti tentado a prolongar ou insistir na sua leitura para além das primeiras folhas, no limite, do primeiro capítulo.

Porém e estou seguro disto, em outras alturas, porventura já não me recordando das evasões anteriores, toquei-lhes e como se nada tivesse acontecido, iniciei e prolonguei deleitadamente o gozo do propósito.

Não é o relato de um desses casos, todavia, que decidi compartilhar hoje nesta crónica.

No caso em apreço o autor será relativamente conhecido dos leitores, tendo ganho proeminência provavelmente a partir de 2003, ano em que se tornou mundialmente famoso (apesar de já em 1999 ter vencido o “Booker Prize”), e em que obteve o Prémio Nobel da Literatura, passando a enfileirar ao lado dessa restrita e genial galeria de humanos capazes de nos pôr a ver, a ouvir, a sentir, a chorar, a rir, a amar ou a pensar, sem esforço, sem obrigação ou com paixão… E com razão.

Chama-se J. M. Coetzee e é sul-africano, professor de literatura na Universidade do Cabo, nascido em 1940 na Cidade do Cabo, igualmente ligada à história portuguesa e às tormentas…

Devo recordar o que foi a África do Sul, sendo que os nossos corações e almas já parecem apenas recheados pela figura e humanidade de Nelson Mandela, como se nada tivesse existido antes dele.

O que é importante sublinhar, dado o facto de o livro de que vos falo, “A Idade do Ferro”, ser um testemunho de como esse distanciamento que poderemos manter em relação ao que foi aquele país austral, enquanto sistema de apartheid, na realidade, para quem lá viveu no lado privilegiado da diferença, também não era absolutamente próximo e sensível.

“A Idade do Ferro” é um livro fabuloso!

Também certamente por eu ser médico e a sua história começar pelo anúncio do diagnóstico de cancro, inexorável e decisivo, à paciente e figura central da obra.

Quase me identifico com a afirmação do colega sul-africano que assegura à personagem que poderá contar com ele: “estaremos juntos” prometeu.

Todos sabemos como é o instante em que nos confrontamos com a necessidade de transmitir a um doente nosso, a sós com ele, um diagnóstico como este, que na verdade não é tanto um prognóstico mas uma sentença de morte!

Todos sabemos o que no plano clínico podemos fazer, ajudar ou prever – até que pontos seremos úteis ou não – mas nunca saberemos realmente o que a outra parte espera, deseja ou quer de nós…

E este livro é nisso exemplarmente lúcido, frio e implacável.

Não gostaria de ser aquele médico e confesso que não sei sequer se ao longo destes quase 35 anos de prática, terei sido, de facto, um clínico como o do livro de Coetzee…

Ora o médico nem sequer é relevante na história nem no livro. Falar dele resulta apenas de eu ser também médico.

O que não invalida que aqui deixe publicamente uma sugestão: penso que livros como este deveriam fazer parte da cultura geral médica e nesse sentido deveriam ser indicados como de leitura obrigatória na formação médica, nomeadamente em áreas como a das especialidades médicas ou oncológicas ou dos cuidados paliativos e que deveriam de ser alvo de discussão no âmbito dos processos formativos ligados aos diversos internatos médicos…

O curso de uma vida que se esgota sem remédio, que definha consciente disso, no desespero de quem nada tem a que se agarrar, na solidão de uma existência numa África do Sul subjugada pela obsessão racial, aonde a filha única casada e a viver nos Estados Unidos prometeu jamais regressar, nem chega a ser dramático para a minha análise. É exclusivamente épico.

E para quem nunca leu qualquer outra obra de Coetzee – e poderia aconselhar outras possibilidades e títulos – então a “A Idade do Ferro” é uma obra-prima na aproximação a este escritor.

Mesmo que numa primeira tentativa o leitor possa desistir…

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