Jornal Médico Grande Público

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DATA
19/05/2015 15:00:45
AUTOR
Luís Gouveia Andrade - Médico Oftalmologista no Hospital CUF Infante Santo
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A propósito dos Programas de Controlo de Peso

Vivemos num mundo estranho em que se morre por falta de comida e por excesso dela. Confesso que é um dos paradoxos que mais dificuldade tenho em entender...

Lendo alguns números – e existem tantos disponíveis – cerca de 155 milhões de crianças em idade escolar no mundo têm excesso de peso ou são obesas.

Em Portugal, uma em cada três crianças tem este problema de saúde. De facto, cerca de 30% das crianças entre os dois e os 12 anos têm excesso de peso e dessas 16,8% são obesas. De acordo com a Comissão Europeia, Portugal está entre os países da Europa com maior número de crianças afectadas por esta epidemia.

Estima-se que, em Portugal, a taxa de prevalência da pré-obesidade e obesidade seja superior a 50% acima dos 18 anos de idade. E, desse valor, 14% refere-se a casos de obesidade.

E poderia continuar citando estatísticas dentro e fora das nossas portas...

Mais curioso foi um estudo a que acedi recentemente, publicado na insuspeita Annals of Internal Medicine, e que aborda a eficácia dos diferentes programas de controlo de peso disponíveis nos Estados Unidos, e que podemos facilmente extrapolar para a Europa.

De acordo com esse estudo, uma estratégia adequada de controlo de peso, para lá do acompanhamento médico e nutricional, deve incorporar programas de exercício físico devidamente desenhados. Até aqui, tudo bem.

O problema surge quando, perante os diversos programas de controlo de peso disponíveis comercialmente, se tenta optar por um e, mais do que isso, não existem ferramentas científicas válidas que permitam comparar esses diferentes programas nem aferir a sua eficácia.

De acordo com os autores deste trabalho, os médicos deveriam saber quais os programas de controlo de peso que foram submetidos a estudos rigorosos e que demonstraram a sua eficácia. Mas essa evidência não está disponível.

E foi com o intuito de preencher essa lacuna que este estudo foi realizado e publicado.

Não pretendo aqui resumir este interessante trabalho nem reproduzir as suas conclusões. O que captou a minha atenção foi o facto de, dos mais de 4.200 estudos incidindo sobre 32 programas de controlo de peso, apenas 39 (menos de 1%) obedeciam aos critérios da Medicina Baseada na Evidência, ou seja eram estudos aleatorizados, comparativos e com uma duração mínima de 12 semanas!

Ou seja, muito do que é apresentado e publicitado como sendo programas de controlo de peso válidos e verdadeiramente benéficos não obedece aos mais elementares princípios científicos.

E é de ciência que estamos a falar. O excesso de peso associa-se a hipertensão, doença cardiovascular, diabetes e, como referi, aumenta de modo significativo a mortalidade associada a diversas causas.

Podemos encarar a perda de peso como uma questão relevante de auto-estima e de aceitação social mas, mais importante do que isso, devemos considerar o seu impacto na saúde e na vida das pessoas.

O controlo do excesso de peso é, por isso, fundamental e deve englobar uma avaliação e apoio médicos, suporte nutricional e exercício físico, sendo claro que esse controlo é mais bem conseguido por quem combina dieta e exercício do que por quem apenas controla o que come.

Contudo, esse exercício físico tem de ser devidamente ajustado às condições gerais de cada pessoa, de modo a não fazer bem a algumas coisas e prejudicar outras e, por outro lado, deve ser validado segundo as mesmas metodologias que permitem que um determinado medicamento seja autorizado para utilização clínica e outros não.

E isso não parece acontecer...

Por outro lado, o tempo é muito importante. Um programa de controlo de peso de curta duração nunca será muito eficaz no que se refere a reais benefícios para a saúde. Perder peso durante três meses e depois recuperá-lo nunca permitirá um correcto controlo da pressão arterial, colesterol e níveis de glicémia. Daí a importância fulcral de avaliar a eficácia destes programas ao longo de 12 meses ou mais.

Regressando ao estudo, mesmo os programas de controlo de peso considerados mais eficazes, apenas permitiram obter perdas muito modestas de peso, na ordem dos 3-5%, o que reforça a importância de complementar estes programas com um sólido suporte médico e nutricional.

Com esta reflexão e a propósito deste trabalho, pretendo sublinhar alguns pontos:

  1. No contexto de uma vida saudável, a manutenção de um peso adequado é um pilar essencial. O excesso de peso é, por si só, um factor de risco para incontáveis doenças, para lá de interferir com múltiplos aspectos da qualidade de vida.
  2. A manutenção de um peso saudável assenta no tratamento das causas do excesso de peso, clínicas ou outras, numa alimentação equilibrada e na prática de exercício físico.
  3. Tanto a alimentação como o exercício físico devem ser ajustados em função de cada pessoa, de modo a se obterem todos os benefícios e se evitarem potenciais prejuízos para a saúde.
  4. A manutenção de um peso saudável é um processo que requer dedicação e que deve ser encarado a longo-prazo, sob pena de se perderem rapidamente todas as conquistas alcançadas.
  5. Os programas de controlo de peso podem ter uma palavra a dizer em todo este processo mas é importante que sejam cientificamente validados e regularmente auditados, à semelhança do que se exige a outras modalidades terapêuticas ou de bem-estar.

Tudo isto é básico, pertence à esfera do senso-comum mas merece ser ocasionalmente recordado. Espero que concordem!...

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