Jornal Médico Grande Público

Rui Cernadas: desculpem mas eu li! Valia a pena o exercício…
DATA
28/07/2015 15:00:36
AUTOR
Jornal Médico
ETIQUETAS

Rui Cernadas: desculpem mas eu li! Valia a pena o exercício…

[caption id="attachment_11851" align="alignnone" width="300"]CernadasRui1 Rui Cernadas - Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.[/caption]

A Comissão Europeia, a OCDE, a DGS e as sociedades científicas portuguesas alertam continuamente para o gravíssimo problema da obesidade infantil em Portugal.

Os números são a cada novo estudo mais assustadores e as implicações para a saúde da população e para as finanças do país no futuro são incalculáveis.

As doenças crónicas e a mortalidade associada vão ser devastadoras.

Por isso, tudo o que se possa fazer para contrariar esse cenário – que é já presente – pode valer a pena.

Mas a ideia que dá o título a esta crónica não é esse exercício, o físico…

Foi apresentado há pouco tempo o “10º Relatório das Doenças Respiratórias em Portugal”, da responsabilidade do Observatório Nacional das Doenças Respiratórias, relativo a 2013.

Há dados que confirmam a tendência verificada em estudos anteriores, como a maior gravidade destas patologias, que nesta altura impõem internamento hospitalar. Essa gravidade corresponde a taxas de mortalidade superiores à da média dos doentes internados em serviços de medicina.

E fala-se de taxas de mortalidade consideráveis, como 6,3% na asma, 9,9% na DPOC e 21% nas pneumonias.

Pese embora o envelhecimento demográfico tão bem conhecido, a verdade é que os dados confirmam que, em 2012, morreram por causas do foro respiratório, 50 indivíduos por dia.

De resto, a DPOC, as pneumonias e os cancros do aparelho respiratório são as três principais causas de admissão hospitalar, ainda que em 2013 só a patologia oncológica tenha registado um aumento nesse indicador. Pesem os números, há uma realidade que sobressai nesta “contabilidade”: em termos absolutos, a doença oncológica deu origem a pouco mais de 6.300 internamentos, a DPOC a mais de 8.200 e as pneumonias a quase 42 mil!

Chegados aqui, surgem-nos de imediato um vasto conjunto de exercícios de análise interessantes de realizar. Desde a invocação dos números relativos à tuberculose e à gripe, ou gripes, para de modo conjugado avaliarmos o impacto pneumológico na mortalidade em Portugal, por exemplo… Ou a discussão sobre as taxas de DPOC em Portugal.

A generalidade dos estudos publicados aponta para taxas de prevalência na casa dos dois dígitos. Porém, nos cuidados de saúde primários, a maior base de dados clínicos do país, os registos a partir dos diagnósticos assumidos estão longe, muito longe, dessa perspectiva.

Na região norte não atinge sequer os 2%.

Dir-se-á que é uma questão de falta de registo… Muito bem. Mas a verdade é que os dados da diabetes ou os da hipertensão, que também são anualmente objeto de relatório por parte do “Observatório”, não obstante serem muito diferentes dos números “públicos”, são confirmados por várias vias.

Dir-me-ão que os indicadores para a diabetes alertaram e consciencializaram os médicos e os enfermeiros para um problema que é de saúde pública… Que seja. Ainda assim este exercício continua a valer a pena…

Acredito que o défice e as dificuldades habituais em sede de promoção da saúde e prevenção da doença, que marcaram anos de estratégias falhadas na educação para a saúde, possam inspirar uma nova estratégia que valorize os ganhos em saúde e permita perceber que, para os obter, há que definir prazos de média e longa duração alicerçados em planos, orçamentos e indicadores de monitorização equivalentes.

Não quero acreditar que a atividade médica e o consequente dever de garantir bons registos clínicos – hoje estreitamente associados à Medicina Familiar que, por definição, se propõe fazer o acompanhamento dos utentes e das suas famílias ao longo de todo o ciclo de vida – se limite ou conforme ao cumprimento de políticas de indicadores. Ou então alguns agoirentos terão mesmo razão…

news events box

Mais lidas