Jornal Médico Grande Público

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DATA
17/05/2016 17:17:00
AUTOR
Luís Gouveia Andrade - Médico Oftalmologista no Hospital CUF Infante Santo
ETIQUETAS

Redes sociais - será que o são mesmo?...

Eis um tema incontornável nos dias que correm: as redes sociais. Pessoalmente, a designação em si mesma faz-me grande confusão. Nas redes sociais existem “amigos” que nunca se viram pessoalmente, que nunca se falaram e que não se conhecem.

Nas redes sociais passam-se horas em estado de puro isolamento social, lendo comentários de estranhos, comentando fotografias de anónimos, partilhando imagens, palavras e vídeos com terceiros, tudo isto em frente a um ecrã de computador ou outro dispositivo, sem que uma palavra seja proferida, um sorrido seja trocado, um contacto físico possa ocorrer.

Como pode ser social uma rede com estas características, que convida ao afastamento real entre as pessoas, onde não se cultiva a interação face a face, onde a palavra é meramente escrita e não falada?

Nesta introdução, de teor estritamente pessoal, não posso deixar de reconhecer, em nome da mais elementar justiça, que estas redes são valiosíssimas em circunstâncias de afastamento geográfico entre familiares e amigos, aí quebrando distâncias e matando saudades, em casos de doença que nos mantém longe dos outros e impossibilitados de com eles conviver e, numa outra perspetiva, como fonte de reencontro entre pessoas cujo contacto se foi diluindo com o tempo e com distância.

Mas, na sua utilização mais comum, parece-me que estas redes isolam mais do que aproximam e não são, por isso, nada sociais. Por outro lado, são, como todos sabemos, uma fonte anónima e, por isso, impune, de agressão verbal, de assédio e de incitamento aos sentimentos e comportamentos mais negativos.

No plano da saúde, muito se tem escrito sobre o impacto das redes sociais, sobretudo no que se refere à saúde mental. Alguns dados publicados referem entre outras, alterações negativas no comportamento, maior dificuldade em relaxar ou adormecer após algumas horas dedicadas às redes sociais, dificuldades no trabalho ou nas relações interpessoais na sequência de confrontos on-line, preocupação ou desconforto face à dificuldade em aceder às redes sociais e, aspeto curioso, uma sensação de tristeza após frequentar as redes sociais e, ao longo do tempo, um estado de infelicidade em relação à vida como um todo.

Obviamente, estes dados são discutíveis e poderão ser facilmente contrariados por outros. O ponto importante que estes dados suscitam e que merece a nossa atenção é ver que o acesso às redes sociais pode assumir a forma de uma dependência, com sintomas clássicos e idênticos aos observados noutras formas de dependência: necessidade crescente de consumo, sentimentos fortemente negativos quando esse consumo não é possível e adoção de comportamentos repetitivos, compulsivos e descontrolados que interferem com o trabalho, com a escola e com a vida social e familiar.

Esta dependência, de acordo com alguns estudos, afeta cerca de 8% da população global, chegando esse valor aos 18,5% para grupos de alto -risco. Um estudo realizado numa Universidade de Hong Kong aponta para 460 milhões de pessoas com sinais e sintomas de dependência da internet...

Noutra vertente, o acesso não filtrado às redes sociais permite que inúmeros adultos e crianças com problemas mentais possam aceder a estas redes. Tratando-se de indivíduos particularmente vulneráveis, os potenciais efeitos nefastos descritos podem aqui assumir consequências trágicas, como, aliás, se tem verificado.

Quem protege estas crianças e estes adultos?... Quem assume as consequências pelo impacto das redes sociais e dos fenómenos de cyberbullying e de assédio sobre pessoas já fragilizadas?...

Como disse, importa ser justo. Existem também dados que apontam para uma maior sensação de pertença e de bem-estar entre os utilizadores das redes sociais e estas podem ser muito úteis para pessoas mais introvertidas, ajudando-as a comunicar, ainda que não da forma ideal.

Por outro lado, estas redes permitem retomar contactos há muito perdidos e que, de outra forma, seriam irrecuperáveis.

No fundo, os exemplos, bons e maus, do impacto das redes sociais nas nossas vidas poderiam ser aqui desenrolados sem fim. Pessoalmente, considero que o tempo passado nessas redes deve ser muito bem gerido. A maior parte do que ali se encontra tem escassa relevância, não corresponde à verdade e afasta-nos do que é verdadeiramente essencial: o mundo que nos rodeia e que está ao nosso alcance. Os nossos colegas, os nossos amigos, a nossa família.

Não abordei aqui outros aspetos do impacto das redes sociais na nossa saúde: a fadiga visual, os vícios posturais, o sedentarismo e o ganho de peso, as tendinites. Mas também eles devem merecer a nossa atenção.

O uso da internet deve ser, por tudo isto, moderado e, no caso dos menores, devidamente monitorizado.

A internet deve servir para abrir janelas e não para fechar portas, isolando-nos do mundo e dos outros.

Utilizada de uma forma sensata, a Internet, como os livros ou os jornais e revistas, é uma fonte inesgotável de informação e de divertimento. O seu uso indevido pode ter consequências dramáticas e de difícil controlo.

Encontrar o equilíbrio adequado e o papel correto para a Internet na vida de cada um de nós é mais um dos desafios dos tempos modernos a que todos devemos estar atentos e prontos a responder.

Levantar os olhos de um monitor e contemplar o que nos rodeia é, e será sempre, uma experiência muito mais intensa e enriquecedora. Falar em vez de escrever também. E tocar em vez de teclar ainda mais...

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