Jornal Médico Grande Público

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DATA
25/05/2016 11:55:26
AUTOR
Guilherme Macedo - Vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Gastroenterologia
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Prevenção do cancro do cólon e reto - um gesto cívico, cultural e humanitário

Desde o início deste milénio, tem sido feito um extenso e profícuo debate no interior das sociedades científicas do âmbito da Gastrenterologia sobre a prevenção do cancro do cólon. Inúmeras vezes o problema foi equacionado em diversas reuniões cientificas, múltiplos trabalhos foram publicados considerando as suas diferentes modalidades e perspetivas e, em simultâneo, promoveu-se ampla discussão sobre toda a literatura científica publicada.

A necessidade de sensibilizar a população portuguesa para este problema, bem como a comunidade médica que de forma mais ou menos direta acaba por ter um papel fundamental na sua mobilização, como é a Medicina Geral e Família. Também foi assumida pela direção da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia, como um importante foco da sua ação. A necessidade da Prevenção do Cancro do Cólon e Reto a desenvolver em Portugal passou assim a integrar-se com as necessidades também identificadas por outras congéneres internacionais, como o Colégio Americano de Gastrenterologia ou as próprias sociedades Americanas e Europeias de Endoscopia Digestiva. Alargou-se, para o palco internacional, o debate sobre todas as questões que o desenvolvimento de uma campanha desta natureza obriga a equacionar, e a estabelecer a intervenção por colonoscopia como aquela que melhor serve o nobre pressuposto do verdadeiro combate a uma doença oncológica tão preponderante na nossa sociedade.

Na verdade, a generalidade dos peritos gastroenterologistas considera que um aumento significativo do conhecimento, pelo público e pelos profissionais de saúde, dos benefícios dos métodos de rastreio presentemente disponíveis é um instrumento fundamental para combater o desenvolvimento do cancro do cólon e reto.

A sensibilização dos profissionais de saúde e da população em geral para o rastreio do cancro do cólon contribui ainda para a consciencialização sobre uma questão mais ampla que é a prevenção. Estabelece uma estratégia de prevenção, exige adaptações estruturais e afetação em recursos financeiros e humanos e, deve ser um objetivo de saúde do nosso país. Vem pois, a propósito, a expressão tantas vezes usada por nós em anos recentes, que enfaticamente representa o esforço a desenvolver bem como a atenção que lhe deveria ser consagrada: “faça das tripas coração”.

Mesmo que se desconheça inteiramente a razão final para se ter um cancro do colon e reto, sabemos que determinados comportamentos estão associados a um maior ou menor risco do seu desenvolvimento.

O peso excessivo e a menor atividade física, consequência de alterações de hábitos de vida induzidos pelo desenvolvimento económico, têm sido associados a um maior risco deste cancro. Combater a obesidade e o sedentarismo é mandatório, estimulando o exercício físico em períodos concretos – aumentar os períodos de marcha, quer aproveitando os períodos do almoço, quer abandonando o transporte público ou privado, em locais mais afastados do trabalho.

Em relação ao comportamento alimentar, sabe-se que um maior consumo de vegetais frescos ou cozinhados está associado a um menor risco de cancro do cólon e diversos estudos sugerem como ideal o consumo de 400 g por dia de fruta ou vegetais, o que corresponde a cinco doses de fruta ou vegetais por dia. O consumo de cereais integrais e de lípidos polinsaturados (azeite, peixe) correlacionam-se também com um menos risco de cancro do cólon. Daí favorecermos o consumo de peixe, fruta, vegetais, cereais integrais, lacticínios e de azeite que predominam na dieta mediterrânica, tradicional em Portugal, mas que tem sido progressivamente substituída por outros modelos de alimentação, muito mais permissivos por serem promotores da obesidade e de todo o cotejo de doenças (digestivas e do fígado) a si associadas.

Há 16 anos, o Presidente Clinton proclamou solenemente que, “... A arma mais eficiente disponível no combate ao cancro do cólon é o diagnóstico precoce...”. Isto fez mudar a atenção dos nossos colegas norte-americanos e sobretudo consciencializar a população americana a recorrer a um método que, mais do que diagnosticar precocemente, identifica o que tem hipótese de vir a ser maligno, e no mesmo ato, evita a sua progressão, removendo essa lesão. A isto se chama, realizar uma polipectomia.

Ou seja: usar um método de rastreio, que também seja um método de diagnóstico precoce e tratamento, sendo por consequência também, um método de prevenção. A colonoscopia adquiriu assim um tremendo protagonismo em muitos países desenvolvidos, por se perceber que estas características lhe conferem um posicionamento único nesta luta sem tréguas. Há obviamente outros métodos de rastreio, e é preciso reforçar que um método disponível de rastreio é melhor de que nenhum método de rastreio! Mas é isso que devemos pretender? Ir mais longe é ir direto à prevenção. Rastrear, identificar, tratar, para curar. É assim que verdadeiramente se faz a prevenção de um cancro que afeta milhares e milhares de portugueses. Este é de facto o desafio cívico, cultural e humanitário que os gastrenterologistas portugueses enfrentam nos próximos anos.

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