Jornal Médico Grande Público

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DATA
30/06/2016 14:00:18
AUTOR
Acácio Gouveia
ETIQUETAS

Os cavalos do espanhol - I

"Ver aquilo que temos diante do nariz requer uma luta constante"

Orwell

Nas últimas eleições foi reconfortante constatar que a promessa, por parte da coligação Portugal à Frente (PàF), PS e PCP, de resolver o problema da população sem médico de família (MF), foi sensatamente remetida para daí a dois anos, ou seja 2017. Até aqui, todos os concorrentes a ganhadores das eleições prometiam o que não podiam cumprir: resolver o problema duma penada. Evoluímos da demagogia irresponsável para o otimismo pouco realista. Já não foi mau!

 

A luz dos números

Os números, enquanto tal, não têm nenhuma importância.

A. Hitler

Permita-se ao escrevinhador opinar sobre os chavões, muitos repetidos e de fundamento assaz frouxo, que diabolizam os números, opondo-os às pessoas. De certo modo acusa-se a matemática de falsear a realidade. Ora é exatamente o contrário: para o conhecimento do real são imprescindíveis ferramentas rigorosas e a matemática (isto é, os números) será, quiçá, a primordial. E como só é possível resolver os problemas que afligem as pessoas conhecendo o real, são, afinal, os números, de vital importância para favorecer as pessoas.

E o que nos dizem os números, disponibilizados em finais de março, sobre as necessidades de médicos de família em Portugal?

Dizem-nos que faltam 632 MF e que, se por um lado até ao final de 2017 é expectável que terminem o internato de MGF 705 clínicos, 254 atingirão o limite de idade. Portanto, o saldo positivo de 451 MF fica ainda aquém do necessário. Logo, o anunciado fim utentes sem MF terá de ser empurrado para os finais de 2018, quando o superavit de MF seria de oito elementos.

Contudo, os números não são omnipotentes enquanto meio de conhecimento. Sabemos que a ciência tem limites e a ingenuidade da crença na omnisciência científica, fortemente implementada até ao transpor do século XIX para o XX, esfumou-se e foi definitivamente banida por Heisenberg. Quer isto dizer que nem toda a verdade nos é revelável pelos números. Há imponderáveis no cálculo acima exposto e só o futuro revelará a dimensão das imprecisões que podemos já vislumbrar.

Primeiro, do lado das necessidades não serão de prever grandes alterações. O saldo demográfico fortemente negativo será parcialmente compensado pela contração do rácio número de utentes/unidades ponderadas, decorrente do envelhecimento da população. Isto é teremos menos gente, mas também listas com menos utentes. Por outro lado, a diminuição populacional far-se-á sentir sobretudo nos pequenos povoados do interior, onde, ao contrário dos grandes aglomerados urbanos, não é fácil fazer reduções dos lugares de médicos.

Quanto à oferta de recursos, os números redondos que usamos são irreais, são apenas aproximações. O contingente de jovens médicos disponíveis será menor do que os tais 705: nem todos os internos terão aprovação nos seus exames de saída e um número não despiciendo optará previsivelmente por emigrar ou por saídas profissionais fora do SNS. Também é preciso ter em conta que as perdas de MF em atividade serão superiores às previstas, quer por morte (desculpem lá, mas considerando a idades de muitos de nós será um facto incontornável), quer por reforma antecipada (por opção serão poucos, mas por doença serão seguramente significativos os abandonos precoces do exercício profissional).

Todavia, também é verdade que, do outro lado da balança, as baixas no efetivo de clínicos serão minimizadas pelos médicos reformados que regressem ao serviço, ainda que temporariamente, pelos que decidam não se aposentar por limite de idade e pelos MF estrangeiros que emigrem para Portugal.

Apesar de todos estes imponderáveis poderemos admitir que antes do fim da década toda a população tenha MF atribuído, que já em 2018 o número de portugueses sem MF deixe de ser um problema e que em 2020 haverá muitos especialistas em MF no desemprego.

A estes imprevisíveis juntem mais um: a data do aumento da idade da reforma (a questão centra-se no “quando” e não no “se”), que baralhará as previsões e antecipará de forma drástica o fim da carência de MF, mas também o espectro do desemprego.

No próximo número passaremos a reflexões mais pertinentes. Fica prometido.

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