Jornal Médico Grande Público

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DATA
05/07/2016 17:15:29
AUTOR
Luís Gouveia Andrade - Médico Oftalmologista no Hospital CUF Infante Santo
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Saúde na Terceira Idade - Pontos a Reter...

Perante a realidade, cada vez mais evidente, do aumento da esperança de vida média das populações com acesso a cuidados de saúde padrão, torna-se imperativo encarar o aumento no número de doenças degenerativas, o prolongamento das doenças crónicas e a necessidade absoluta de preservar a qualidade de vida ao longo desses anos ganhos.

Em leituras recentes encontrei uma série de reflexões sobre a saúde na terceira idade, sendo curioso analisar quais os tópicos que suscitam mais atenção.

A actividade física e a nutrição são fundamentais na terceira idade, uma vez que são mecanismos essenciais de prevenção de inúmeras doenças, entre as quais diversos tipos de cancro, doença cardiovascular, diabetes, para lá do seu impacto positivo na autoestima e no equilíbrio psíquico. É um dado adquirido que a inactividade tende a surgir com a idade, mas é importante contrariar essa tendência, estimulando o exercício físico e as caminhadas e integrando essas actividades noutras de carácter social e/ou lúdico.

Comer bem é essencial. Sempre. Em qualquer idade. No idoso, a solidão, a doença, as limitações financeiras, são algumas das causas para uma alimentação deficiente e desequilibrada. Uma dieta rica em nutrientes deve ser sempre estimulada e é um factor crucial para uma vida longa e saudável.

Como consequência dos pontos anteriores, o excesso de peso e a obesidade são preocupações actuais da Medicina Geriátrica, sendo importantes factores de risco para a hipertensão arterial, diabetes tipo 2, doença coronária, acidente vascular cerebral, dislipidémia, osteoartrose, apneia do sono, aumento da incidência de cancro da próstata, cólon, mama e endométrio, apenas como exemplos de uma extensa lista de problemas de saúde gerados pelo excesso de peso.

Combater o sedentarismo e criar hábitos saudáveis de alimentação são ferramentas cruciais para evitar o ganho de peso e todos os problemas a ele ligados. E, eis de novo, um tópico de saúde tão válido na terceira idade, como na infância ou na idade adulta...

O tabagismo surge igualmente como preocupação central na terceira idade. Naturalmente, o consumo de tabaco inicia-se geralmente mais cedo mas a manutenção deste hábito ao longo da vida aumenta dramaticamente o risco de desenvolvimento das inúmeras doenças a ele associadas. Como tal, importa que os esforços feitos para que este consumo diminua não se centrem apenas nas camadas mais jovens mas que incidam igualmente na população sénior.

O uso indevido de fármacos e o abuso de substâncias ilícitas e de álcool é outra área a não negligenciar. O consumo de álcool como fonte de energia e de calor, como alternativa barata a uma alimentação saudável ou como "escape" emocional é comum no idoso, podendo esse consumo associar-se, de modo ainda mais perigoso, à utilização concomitante de medicamentos sujeitos a receita médica ou não. A redução inevitável nas capacidades cognitivas gera um importante risco de ingestão de fármacos em doses ou combinações erradas e, por tudo isto, este é um campo de intervenção que deve merecer toda a nossa atenção.

De um modo interessante, e que nos deve fazer pensar, um trabalho de uma universidade norte-americana refere a infecção pelo VIH como um aspecto a considerar no idoso. De facto, cerca de 11 a 15% dos casos de infecção pelo VIH nos Estados Unidos ocorrem depois dos 50 anos de idade e o número de casos de SIDA nessa faixa etária aumentou mais do que em populações mais novas. As razões apontadas para esse aumento são a não utilização de preservativo nesta população mais idosa, a redução da eficácia do sistema imunitário e a maior dificuldade em destrinçar os sintomas iniciais da infecção por VIH daqueles que surgem em inúmeras condições clínicas típicas do idoso. É, portanto, de considerar esta doença sempre que se avalia um doente com mais idade e não assumir que essa infecção não pode nestes casos estar presente.

A saúde mental é outra área-chave no idoso e aqui tende a ocorrer um excesso de catalogação e preconceito. A demência é utilizada para definir quadros muito distintos e tende a ser considerada uma característica da idade quando, na verdade, para ela podem contribuir situações tão díspares como doenças, reacções a medicamentos, problemas visuais e auditivos ou a insuficiência renal. Para lá da demência, ou talvez mais do que ela, a depressão é um problema comum no idoso e é uma causa frequente de suicídio. Identificar precocemente a depressão, sinalizar quem está em risco, criar mecanismos sociais de suporte, tratar clinicamente, eis alguns passos a não descurar para evitar ou minimizar a depressão na terceira idade com toda as suas consequências.

Os traumatismos associados a quedas são uma das causas mais comuns de internamento e morte no idoso. As doenças degenerativas osteoarticulares, os problemas visuais e auditivos, a perda de equilíbrio, os efeitos adversos da medicação são alguns dos factores responsáveis por estes acidentes. A segurança em casa e na rua deve ser reforçada e esta é, por isso, uma área de intervenção que ultrapassa a Medicina e que deve envolver toda a comunidade.

A violência exercida sobre as pessoas mais idosas é um tema recorrente na comunicação social e, sendo tão intolerável como qualquer outra forma de violência, deve fazer-nos reflectir sobre os modelos de sociedade que construímos e onde habitamos.

Do mesmo modo, as populações mais idosas habitam, com maior probabilidade, em zonas mais degradadas e mais poluídas, facto que reduz a sua qualidade de vida e aumenta o risco de doença.

Sendo as infecções respiratórias uma das principais causas de mortalidade na população mais idosa, a imunização foi um passo importante e deve ser sempre estimulada, naturalmente sob supervisão médica.

Como corolário disto tudo, é essencial existir uma rede de cuidados da saúde abrangente, eficaz e, sempre que possível, suportada por médicos com diferenciação em Geriatria.

Uma das medidas da evolução civilizacional é, sem dúvida, a capacidade e a vontade de bem acompanhar as populações mais desfavorecidas e as mais idosas, garantindo-lhes qualidade de vida e retribuindo-lhes tudo o que, ao longo da sua vida, nos proporcionaram.

E, um dia, será também a nossa vez...

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