Jornal Médico Grande Público

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DATA
29/09/2016 16:10:47
AUTOR
Andreia Fernandes - Interna de MGF
O ensino de SBV nas escolas

Sou médica interna do terceiro ano de Medicina Geral e Familiar na área de Barcelos e médica da VMER de Barcelos. Desde cedo, durante a formação no mestrado de Medicina, o interesse pela emergência médica foi surgindo, e a minha tese de final de mestrado incidiu sobre esta temática.

Assim, foi com grande satisfação que recebi a notícia de que no passado dia 14 de setembro de 2016 foi assinado pelos ministros da Saúde e da Educação o protocolo do programa que irá permitir aos alunos do ensino secundário acederem a uma formação em Suporte Básico de Vida. Estamos finalmente a evoluir e a alterar paradigmas já há muito estabelecidos.

Considerado que a doença cardíaca isquémica é a principal causa de morte no mundo (Murray CJ, 1997), e que na Europa, a doença cardiovascular representa cerca de 40% de todas as mortes antes dos 75 anos (Sans S, 1997) sendo a morte súbita responsável por mais de 60% das mortes do adulto por doença coronária (Zheng ZJ, 2001), esta é uma temática importante.

Em tempos, considerava-se que, perante uma situação de PCR, um leigo em nada poderia ajudar a manter manobras até à chegada de ajuda diferenciada. Em 2010, o European  Resuscitation   Council   Guidelines  for Resuscitation referiu que o  início  imediato  de  manobras de Suporte Básico de Vida (SBV) permite  duplicar  ou  triplicar  a  probabilidade  de sobrevida  de doentes em PCR, e ainda que fazer  só  compressões  torácicas  é  melhor  do  que  não fazer  reanimação nenhuma. Já em 2007, Ian Maconochie afirmava que a aplicação de manobras de SBV por pessoas sem formação específica pode  melhorar  a  taxa  de  ressuscitação  após  uma  paragem cardiorrespiratória mas, menos  de  1%  da  população  mundial  sabe  realizar  SBV.

À luz do conhecimento médico atual, considera-se que há atitudes que modificam o resultado no socorro à vítima de PCR: 1. Pedir ajuda, acionando de imediato o Sistema Integrado de Emergência Médica (SIEM); 2. Iniciar de imediato manobras de Suporte Básico de Vida (SBV); 3. Aceder à desfibrilhação tão precocemente quanto possível, mas apenas quando indicado; 4. Início de Suporte Avançado de Vida. Esta é a definição da cadeia de sobrevivência e esta cadeia tem a força do elo mais fraco. Assim, de nada serve ter o melhor SAV se quem presencia a PCR não souber ligar 112.

Deste modo, hoje, à semelhança do que fiz em 2012, volto a defender o “quinto elo” – a formação – que se baseia no socorrismo e no SBV para a população em geral, permitindo o reconhecimento de uma PCR, a correta ligação para o 112 e passagem de informação e o início precoce de SBV.

Há muitos fatores que diminuem a disponibilidade das testemunhas para iniciar a reanimação, incluindo o pânico, o medo de contrair doenças ou de magoar a vítima com procedimentos de reanimação incorretos (European Resuscitation Council Guidelines for Resuscitation, 2010). A formação de leigos aumenta a disponibilidade para iniciar a reanimação (European Resuscitation Council Guidelines for Resuscitation, 2010).

Qual o modo mais abrangente de chegar a todos, se não a implementação desta formação no currículo obrigatório dos estudantes?

Tornando obrigatório o ensino de socorrismo e SBV nas escolas, estamos a mudar atitudes e comportamentos nas crianças (Frederick K, 2000). Está provado que a sobrevivência de doentes em PCR poderia ser melhor se SBV fosse ensinado a todas a crianças em idade escolar (Ian Maconochie, 2007). Deste modo, a prévia introdução desta formação no currículo escolar, não seria ameaçador para crianças que geralmente estão interessadas em aprender e que são capazes de absorver novas informações, e a passagem do conhecimento teórico para a prática seria relativamente fácil (Ian Maconochie, 2007).

Através da implementação do ensino do SBV no currículo obrigatório, para além de dotarmos uma criança com a capacidade de responder a uma situação de PCR, vamos permitir a difusão dessa informação a familiares e amigos, reforçando a cadeia de sobrevivência onde esta apresenta mais falhas – identificação com pedido de ajuda e início de SBV.

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