Jornal Médico Grande Público

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DATA
29/09/2016 16:17:19
AUTOR
Luís Gouveia Andrade - Médico Oftalmologista no Hospital CUF Infante Santo
ETIQUETAS

Consultas à distância farão sentido?...

Já aqui abordei o impacto da tecnologia na evolução da Medicina e da Cirurgia, com todos os seus enormes benefícios mas, como sempre, com algumas reticências, e já abordei também o papel das redes sociais e da informação em inúmeros aspectos das nossas vidas, desde o acesso a informação, tanto excelente como duvidosa, até ao contacto com conhecidos e estranhos em todo o mundo, reduzindo distâncias mas criando problemas de diversa natureza.

Recentemente, tem surgido uma nova realidade na Medicina para a qual fui há umas semanas convidado a dar o meu parecer e que tem adquirido uma visibilidade crescente na comunicação social e na publicidade em outdoors: consultas médicas à distância, aqui se incluindo, pedidos de segunda opinião ou de aconselhamento médico.

Sem querer parecer, porque não o sou de todo, avesso ao papel da internet no mundo actual, eis uma área que me suscita enormes reservas. Por várias razões.

A primeira delas, e a mais decisiva, é a própria definição da Medicina e do Acto Médico que não pode ser concebido sem uma relação médico-doente criada entre duas pessoas que se relacionam entre si, que estabelecem um pacto de confiança e pela qual, fruto dessa confiança, o paciente entrega um determinado aspecto da sua saúde a um médico. Essa relação médico-doente pressupõe, ainda, uma avaliação médica que é impossível de realizar à distância. E nada, mas nada, pode substituir o contacto visual, o peso da palavra, a avaliação clínica presencial, o afecto e o calor humano que apenas podem fluir perante duas pessoas que estão no mesmo espaço físico.

Por outro lado, uma consulta à distância permite avaliar de uma forma superficial os problemas de saúde, propondo soluções genéricas e deixando de lado a especificidade de cada doente. Por mais informação que se transmita, por mais questões que sejam colocadas, será sempre impossível formular um diagnóstico e propor um tratamento com base em elementos recolhidos deste modo. Naturalmente, o cenário é distinto quando médico e paciente já se conhecem e a consulta à distância resulta de um impedimento pontual de aceder a uma avaliação presencial. Nesses casos, o médico dispõe de informação clínica muito mais vasta que lhe permite, embora sempre com reservas, propor um tratamento sem ver o seu paciente...

As questões de natureza ética e legal serão também diversas. Como se pode tratar um doente que não se conhece, que não foi por nós directamente observado? Como se faz o acompanhamento do tratamento? Como se monitoriza? Mesmo perante doentes meus, que conheço bem, tenho muitas reservas em receitar algo com base num pedido de ajuda por telefone e prefiro marcar uma consulta. O cenário será ainda mais inverosímil para um doente que nunca vimos... E se algo corre mal?...

O processo de diagnóstico e tratamento em Medicina tem tido uma tremenda evolução nos últimos anos. O acesso à informação, boa ou má, pelos pacientes tornou-os interlocutores directamente envolvidos no processo de decisão e não meros receptores passivos da vontade ou do conhecimento do médico. Os tratamentos são, com frequência, discutidos em conjunto e, por isso, cada vez mais os doentes prestam por escrito o seu consentimento informado para a prática de exames ou tratamentos mais invasivos.
As consultas médicas à distância, também um produto da disponibilidade que a tecnologia proporciona, apontam para um rumo contrário, desresponsabilizando doentes e médicos, os primeiros da informação que prestam e que não é confrontada com um exame médico presencial, os segundos por emitirem pareceres ou recomendações apenas com base na informação que lhes é informaticamente disponibilizada.

Como em tudo na vida, entendo que um serviço médico à distância pode ser útil sempre que existam barreiras geográficas, impossibilidade de deslocação ou ausência de um especialista numa determinada região. De igual modo, a discussão de casos clínicos entre colegas de diferentes países, a TeleMedicina e o ensino à distância são marcos assombrosos dos nossos tempos que reduziram custos e aumentaram o acesso a melhores cuidados de saúde. Mas uma coisa é utilizar estas ferramentas para debate médico entre pares, onde os doentes foram observados por um dos participantes e o conhecimento é partilhado entre profissionais, outra coisa é prestar assistência médica a um doente que não tem junto de si um médico. Nestes casos, poderá ser relevante e não contraproducente a criação de serviços para esclarecimento de dúvidas de carácter genérico ou para recomendar a realização de determinado exame de diagnóstico. Mas a definição desse diagnóstico e, mais do que isso, a formulação de um tratamento à distância parecem-me gestos que colidem com a essência da Medicina e que, como tal, temos de repudiar.

Em síntese, vislumbro mais riscos do que oportunidades nas consultas médicas à distância. A prática médica é, por definição, humanista e não se pode remover da equação a interacção real e física entre médicos e doentes. A tecnologia será essencial na melhor comunicação entre médicos e doentes, na criação de novas metodologias de diagnóstico e de tratamento, mas tudo deverá ter o seu ponto de partida em duas pessoas que, entre si, estabelecem a mais próxima das relações: curar e querer ser curado.

Aceito ver nesta nova prática tão publicitada um complemento modesto e discreto da actividade médica, mas nunca poderemos permitir que ele se torne regra em vez de excepção.

Uma Medicina sem médicos e doentes em presença uns dos outros deixará de o ser e tornar--se-á algo que nem consigo classificar ou descrever.

Saibamos, pois, aproveitar tudo o que este mundo novo tem para nos oferecer mantendo sempre bem presente que o foco do nosso trabalho e da nossa vida é ver e tratar doentes, Primeiro vê-los. Depois, só depois, tratá-los.

Nota: Texto escrito de acordo com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.

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