Jornal Médico Grande Público

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DATA
29/09/2016 16:01:21
AUTOR
José Agostinho Santos - Lavra, USF Dunas - ULS, Matosinhos
ETIQUETAS

A eterna questão da felicidade humana

Num destes dias de junho, entreguei-me à pura delicadeza de um dia de férias, deixando-me à deriva e entregue ao minuto após minuto. Após um período extenso e intenso de trabalho em que velejei no conhecido tormento que caracteriza o quotidiano de um médico de família que apenas tenta exercer Medicina Geral e Familiar, estes dias de férias (em que, mesmo a chover torrencialmente, são dias de sublime serenidade neste oceano que é a vida) permitem entender como a nossa resiliência se constrói perante a nossa própria testemunha. É essa mesma testemunha (esta presença!) que me tem acompanhado e que se tem mantido tal como ela é, quer eu esteja no gabinete quer eu esteja neste banco virado para o mar.

Neste mesmo banco, dou pela minha mente a pensar como resiliência, resistência, felicidade, infelicidade… são, elas próprias, frutos da mente. E, nem a propósito e após algumas horas, encontro-me com um amigo que, mesmo sem intenção da sua parte, me permite dar seguimento às minhas reflexões. É habitual conversamos sobre tudo que a vida traz. Este meu amigo é possuidor de uma mente com extraordinárias capacidades cognitivas, mas há já algum tempo que eu denotara, mesmo de forma algo rudimentar, que ele se teria tornado dominado por esta sua mente. Veio nesse dia ao meu encontro com uma expressão corporal que comunicaria uma possível sensação de desconforto consigo mesmo. Perguntei-lhe se estava a sentir-se bem. Ele foi claro: sentia uma inquietação geral (“stress!” - descrevia ele para identificar o seu mal-estar psicológico) que incluía uma fadiga generalizada, insónia e desmotivação para as suas atividades diárias. Ao contrário, porém, do que é habitual ouvirmos ou lermos, este fantástico ser humano não atribuía nenhuma causa para tal mal-estar. Não enfrentava más condições de trabalho, não indicava no exterior as fontes para ausência de paz interior. Pelo contrário, descreveu-me as coisas que a sua mente descrevia como “boas na sua vida”: um namoro estável, um “bom” trabalho, uma casa, um carro, os pais ainda vivos, alguma reserva monetária para poder viajar, etc. Dizia-me que se sentia confuso e que não entendia o porquê de se sentir algo infeliz.

Este ponto de confusão é, para a minha mente classificadora, até relativamente positivo. Neste ritual da prática médica para uma população tão diversificada (“dos miúdos aos graúdos”), surgem encontros com seres humanos que expressam igualmente a sua inquietação interior, mas que atribuem essa congregação de sentimentos à ausência (real ou imaginada) de algumas condições exteriores. Nesses encontros, a confusão mental é a mesma, mas com uma agravante: está mascarada. Este meu caro amigo está no ponto em que, apesar de dominado pela sua mente, inicia uma constatação de estar “igualmente inquieto apesar de possuir todas estas coisas”. Desconheço se poderei denominar esse aspeto de “despertar”...

No avançar das ideias trocadas e dos “escutares” mútuos e num ligeiro rasgo de criatividade pela minha mente, emerge em mim uma pequena história que agora partilho. Disse-lhe: vamos imaginar um agricultor desapontado que nos diz “não percebo! comprei um terreno grande, retirei as ervas daninhas, tem chovido, tem feito sol... e não há uma única batata no campo!”. No início, o domínio da mente do meu amigo sobre si mesmo tornou-se evidente: “teve azar...”, disse ele. Perguntei depois se terá sido azar ou se foi pelo facto de o agricultor não ter semeado uma única batata. “Ah, mas isso já era suposto!”, respondeu. A questão central estará, quiçá, aqui: esta “cegueira mental” que todos nós (humanos) teremos tendência para submergir e que não nos permitirá “ver” (ou pensar!) que o problema poderá estar na mente ou na semente.

Continuei em alta voz enquanto construía também algo para mim mesmo: trata-se de semear para germinar. A batata não é o sol, a chuva ou a terra. A batata é a semente germinada. Se a felicidade é um estado mental, ora a felicidade não é a relação amorosa, nem o trabalho nem tudo o resto. A felicidade diz, na verdade, respeito à mente.

A conversa prolongou-se numa serenidade, tal como aquela serena brisa marítima… Falámos das causas/origens da felicidade e dos seus fatores condicionantes. Falámos também dos critérios para definir felicidade. É curioso como se abordam os mesmos pressupostos na área cientifico-médica: quais as etiologias e os fatores agravantes/protetores das patologias, quais os critérios diagnósticos… e como os critérios diagnósticos diferem, por vezes, de sociedade para sociedade...de país para país...

É também curioso como a ausência de felicidade está, provavelmente, na etiologia/origem de tantas patologias. Hmmm… só isto dava para texto para ocupar uma edição inteira do Jornal! Por aqui fico.

Assim é a vida! Bom trabalho!

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