Jornal Médico Grande Público

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DATA
29/09/2016 16:00:35
AUTOR
Rita M. Oliveira - Médica interna de formação específica de MGF da USF Lagoa - ULS Matosinhos. Membro do Grupo de Investigação Senhora da Hora
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O processo diagnóstico dos médicos de família

Durante o nosso dia-a-dia, é frequente ouvirmos comentários depreciativos dos nossos utentes sobre diagnósticos e decisões clínicas tomadas por outros colegas (e vice-versa também se aplicará). Ou é porque “o médico não quis passar antibiótico e o meu filho andou uma semana com amigdalite!”, ou é porque “o médico disse que era alergia, que incompetência, pois afinal dois dias depois fui a outro médico e era conjuntivite!”. Na maioria das vezes, as críticas são infundadas por, perdoem--me a palavra, ignorância. E na maioria das vezes, não damos resposta. Mas se educação para a saúde dos nossos utentes faz parte das nossas competências nucleares, porque não esclarecê-los também sobre o complexo processo diagnóstico em Medicina Geral e Familiar (MGF)?

Tal como é definida na Europa, a MGF é normalmente a porta de entrada no sistema de saúde, proporcionando acesso aberto e ilimitado aos utentes, e lidando com todos os problemas de saúde.1 A crescente acessibilidade aos Cuidados de Saúde Primários (CSP) ocasiona uma maior procura dos nossos serviços por quadros inespecíficos em fases iniciais da evolução da doença. Porém, a ideia generalizada e adquirida das séries televisivas de que na Medicina dos dias de hoje tudo se diagnostica analiticamente contribui para que os utentes estabeleçam expetativas de receber uma certeza diagnóstica logo numa primeira abordagem. Não importa há quando tempo a criança está com febre (às vezes, só horas!), é exigido ao médico de família (MF) que garanta um diagnóstico ou, em caso de incerteza, que disponibilize no imediato os meios complementares necessários para o fazer, como se na Medicina 1 + 1 fosse sempre = 2. Quando estas expetativas não são correspondidas e a evolução da doença acaba por levar a um diagnóstico diferente (afinal a virose inicial veio a ser 3 dias depois uma otite objetivada por outro médico), o MF é um “incompetente”.

Cada doença tem a sua própria evolução natural e inicialmente os sintomas e sinais podem ser inespecíficos e comuns a várias doenças. Aqui, outros dados podem coadjuvar na formulação das hipóteses de diagnóstico, como os antecedentes e o contexto epidemiológico em que o utente se insere. Após excluídos sinais de alarme de doenças que requeiram intervenção urgente, estabelece-se o diagnóstico mais provável tendo em conta todas as variáveis supracitadas, e o respetivo tratamento, geralmente com a indicação para manter vigilância e recorrer novamente aos CSP em caso de agravamento/ /não melhoria. Quando o plano instituído não resulta e o utente procura o médico novamente, já a doença se encontra numa fase em que é possível estabelecer um diagnóstico concreto e com maior grau de certeza.

Uma metáfora, mais ou menos feliz, é a de que o processo diagnóstico é como um safari. Diagnosticar uma doença em fase inicial é como olhar para um animal ao longe, vemos uma sombra em forma de cavalo mas também pode ser uma zebra ou um burro. Se estivermos em África, o mais provável é ser uma zebra. À medida que nos aproximamos (ou a doença evolui), vemos que não tem riscas e por isso não é uma zebra, e que na realidade mais se parece com um burro.

Aqui, uma relação de confiança médico-paciente baseada na comunicação é essencial. O conceito de que a Medicina é uma ciência de probabilidades é desconhecido do cidadão comum, por isso assumir humildemente a incerteza diagnóstica perante o utente, estabelecer em conjunto um plano e apresentar alternativas acessíveis caso a evolução não seja como esperada são algumas das estratégias que devem ser adotadas nas nossas consultas.

 

Referências bibliográficas:
1. WONCA Europe (2011). The european definition of general practice/ family medicine. Disponível em:  http://www.woncaeurope.org/sites/default/files/documents/Definition%203rd%20ed%202011%20with%20revised%20wonca%20tree.pdf (Acedido: 12 Mai 2016).

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