Jornal Médico Grande Público

Concursos, Convites & Cia
DATA
27/12/2016 15:27:34
AUTOR
Jaime Teixeira Mendes - Presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos
ETIQUETAS

Concursos, Convites & Cia

Ao ler-se o “Diário Íntimo”, de Manuel Laranjeira, escrito por este médico e escritor a exercer clínica no Porto e em Espinho e publicado em 1957, por Alberto Serra, deparamo-nos com a insistência dos seus amigos para que este concorra a Professor da Escola Médica do Porto, após os 19 valores na tese de doutoramento, sobre a Doença da Santidade.

“(...) O Manuel vem insistir comigo para eu concorrer à Escola Médica. É uma aventura inútil que não farei - respondo. Expõe-me várias razões para eu concorrer e conta-me este facto estupendo: foram convidados fulano, cicrano e beltrano pelo conselho da Escola. Não concorrem. Eu devo aproveitar e ir. Sem ser convidado? Ponho-me a sorrir - dos homens e da vida. Ainda é uma consolação a gente poder rir-se satisfeita da pequenez dos homens”.
“O Manuel manda-me dizer que não falte amanhã para combinar essa coisa do concurso à Escola. (...) Eu não transijo com essa canalha... Eu não. Não escrevo ao Manuel e não vou...”, in “Diário Íntimo”, Manuel Laranjeira, pág. 49,50 Ed. Porto Editora 1957.
Manuel Laranjeira (1877 - 1912), amigo de Souza Cardoso e de Miguel Unamuno, inicia em 1909 uma série de artigos nos jornais em que denuncia a incompetência dos lentes e o compadrio no convite para Professores Universitários (terem organizado uma família de lentes, com uma selecção de capacho). O que levou a que, nesse mesmo ano, a Direcção Geral da Instrução Pública ordenasse o adiamento dos concursos sem data marcada. A República é implantada em 1910 e um ano depois a reforma do ensino superior é feita e as Escolas Médicas passaram a chamar-se Faculdades.
Isto foi há mais de 100 anos. Mas, durante este longo período, muitos casos de concursos viciados e de Professores ou Directores convidados aconteceram e continuam a acontecer.

Se queremos preencher as vagas os diversos estabelecimentos e saúde temos de regressar a concursos abertos, nacionais ou regionais, sem longas demoras, classificando os candidatos pelo método de seriação

A salvação e dignificação do Serviço Nacional de Saúde passam, obrigatoriamente, por concursos feitos com transparência e júris escolhidos pela sua competência sem conflito de interesses. Poucos têm hoje a coragem de Manuel Laranjeira ao recusar entrar por convite ou por um concurso presidido por lentes não qualificados.
As carreiras médicas devem, sim, obedecer a uma hierarquia baseada na competência e conhecimento científico. Ninguém respeita um chefe incompetente ou que tenha sido convidado, muitas vezes, contra a vontade de todo um serviço. Esta é uma realidade que infelizmente não é estranha a muitos colegas.
Se queremos preencher as vagas nos diversos estabelecimentos de saúde temos de regressar a concursos abertos, nacionais ou regionais, sem longas demoras, classificando os candidatos pelo método de seriação. Depois da escolha feita, aqueles que não preencherem a vaga ficarão a aguardar próximo concurso, desvinculados do SNS.
A propósito, recordo ainda o relatório sobre as carreiras médicas, assinado a 2 de Maio de 1961*, que continua a ser uma bandeira da Ordem pela qual nos devemos bater.
Concluía, então: “(...) substituir a insegurança pela estabilidade; a contingência pela garantia; a má remuneração pela justa retribuição; a desordem pela ordem”. No mesmo relatório, surgia a frase do escritor catalão, Eugénio d’Ors, nas suas Glosas: “cada homem, um servidor; cada serviço, uma dignidade; cada dignidade, um dever; cada dever, uma técnica; cada técnica, uma aprendizagem”.
É tempo de pararmos os queixumes, e olharmos para o essencial: a atual ausência de carreira, o compadrio e a falta de transparência não estão apenas a pôr em causa a vida dos médicos, estão a pôr em causa a saúde dos utentes, cada vez mais perdidos entre jogos de poder e influência. Precisamos de carreiras estáveis, bem remuneradas e que garantam previsibilidade e estabilidade nos serviços oferecidos.

* Ordem dos Médicos; relatório sobre as carreiras médicas; 1961 Lisboa, pg 223.

Registe-se

news events box

Mais lidas