Jornal Médico Grande Público

Os sorrisos no fim de vida…
DATA
27/12/2016 15:56:53
AUTOR
Micaela Prata - Médica Interna de MGF na USF Anta
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Os sorrisos no fim de vida…

Atualmente, a sociedade discute a legislação da eutanásia, um assunto que deve ser debatido com clareza, de forma reflectida e não precipitada. Não se trata de uma discussão de direita ou de esquerda, nem religiosa, mas de valores morais.

A sociedade deve, de facto, preocupar-se com a forma como deseja morrer e isso vai muito para lá da discussão da eutanásia. Neste sentido, é de lamentar que as questões sobre o fim de vida só agora tenham adquirido relevância mediática.
A morte é a única certeza que temos na vida e para a maioria das pessoas o mais assustador não é estar morto, é estar a morrer.
A expressão do desejo de morrer é a expressão do desejo de viver de outra forma. O ser humano não quer morrer, mas sim aproveitar todos os segundos da sua vida, com conforto e dignidade. Mas, quem define o que é dignidade ou a qualidade de vida aceitável? O que é uma boa vida ou uma boa morte?
A eutanásia consiste em acabar com o sofrimento através da morte, mas efetivamente ser morto por outra pessoa é a forma menos digna de morrer. Validar a eutanásia não significa aceitar o direito de morrer, mas sim de ser morto por alguém. A eutanásia não é um tratamento médico. Sendo assim, caberá ao médico concretizar o último segundo da vida dos seus doentes?
Invocar a autonomia pessoal para pedir a alguém para ser morto pressupõe o reforço do poder médico e consequente perda da tão desejada autonomia do doente. Porém, a autonomia do doente não deve ser um princípio absoluto que se sobrepõe a tudo o resto numa perspectiva individualista.
É de salientar também que esta discussão não é sobre cuidados paliativos em oposição à eutanásia, pois todos somos a favor dos cuidados paliativos. Estes dirigem-se a doentes em fim de vida, em sofrimento, com doença grave, incurável e progressiva, independentemente da idade. Têm como objectivo evitar o sofrimento intolerável e disruptivo que o impede de desfrutar da sua vida com qualidade, interagir e reconciliar-se com os outros, com o Mundo, com Deus ou até consigo próprio.
O mais importante para o doente próximo da morte é o conforto, não ser um fardo para os outros, alcançar a paz existencial, a sensação de deslumbramento e a espiritualidade. É indispensável aprender a viver os momentos de prazer, não apesar da morte, mas por causa deles. Deste modo, os cuidados paliativos não se resumem a pastilhas para a dor física. O doente deve ser incentivado a manifestar as suas preocupações, os seus objetivos e ser ajudado a cumpri-los. Cada um desses objetivos reflete mais uma oportunidade de felicidade na sua vida, momentos e memórias para quem fica.
As prioridades mudam. Trata-se de utilizar os sentidos (visão, olfato, paladar, toque e audição), mesmo que apenas um, como gratificação por existirmos, enquanto seres humanos, relacionados com o mundo.
No entanto, temos muito que evoluir. Há que mudar a forma como as pessoas têm acesso aos cuidados de saúde no fim de vida. Há que reconhecer os doentes em fim de vida.
Os hospitais foram pensados e desenhados para curar doenças e não para viver ou morrer. A assistência médica deve tornar a vida mais auspiciosa e não menos horrível. Para isso, deve ser criado o verdadeiro modelo centrado na pessoa e não na doença. Recusar a distanásia, que consiste na futilidade e obstinação terapêutica que prolonga a vida através de meios artificiais e desproporcionados que causam sofrimento inútil, na busca da utópica cura da doença.
Numa era de tanta tecnologia e em que somos tão bons em tantas áreas da medicina, não podemos deixar que os doentes que mais precisam do serviço de saúde sejam tratados desta forma pela sociedade. A principal discussão da sociedade deverá centrar-se na necessidade de investimento na formação precoce dos profissionais de saúde em cuidados paliativos, já desde a faculdade e na criação de equipas de apoio domiciliário especializadas nesta área para todos os doentes em fim de vida, em vez de discutir sobre a eutanásia como resposta o sofrimento.
A partir do momento em que validamos a morte como resposta para o sofrimento intolerável dos mais vulneráveis, alargamos os motivos de sofrimento e abrimos um saco que levará à banalização da morte. Não podemos ter a pretensa ilusão que se faz uma lei perfeita, tendo em conta os artigos publicados e a realidade de outros países.
Queremos uma vida assistida e não uma morte assistida.
Como forma de prevenção da distanásia existe um documento disponível no centro de saúde ou no portal do utente, denominado “Testamento Vital”, em que o utente pode definir quais os cuidados de saúde que pretende ou não receber ou nomear um procurador de cuidados de saúde.

 

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