Jornal Médico Grande Público

Desculpem, mas eu li: Cultura europeia
DATA
27/12/2016 16:12:59
AUTOR
Rui Cernadas - Médico de família
ETIQUETAS

Desculpem, mas eu li: Cultura europeia

Alguns amigos livreiros confirmam que o Natal é sempre uma época alta para a comercialização de livros. Ao que parece, um livro é sempre uma boa prenda e a possibilidade de facultar a sua eventual troca, reforça essa ideia.

O que releva, naturalmente, para que aproveite esta invocação para a todos expressar os melhores votos de Boas Festas e sobretudo de um Novo Ano excelente.
Há certas leituras que nos marcam e assim volto aos livros que tanto prezo, ora pela maneira da abordagem temática ou estrutural, tentando concretizar melhor, ora pela impressão ou marcas que nos provocam e que, à sua medida, nos vão moldando a mente, enriquecendo o conhecimento, alargando as vistas e ensinando a ser diferentes.
No fundo, bem no fundo, somos o que nascemos, mais o que a todos os títulos aprendemos ao longo da vida, seja com os progenitores ou os familiares ou os cuidadores, seja com a escola, os amigos, o trabalho e os outros todos com que nos vamos cruzando... Ainda assim, somos também um pouco do resultado da nossa interação com o meio ambiente, ainda que desse possamos em muitos casos receber de volta o que não esperamos.
O meu pensamento voava livre e independente quando me chegou às mãos um livro novo, bem antes do Natal, de Eduardo Lourenço, e cuja leitura vos recomendo sem hesitação. Trata-se de uma edição de 1999 da editora Fim de Século, intitulada “Do Mundo da Imaginação à Imaginação do Mundo”. Uma reflexão impressionante que nos obriga a reflectir e não raras vezes a parar a sua leitura, voltar atrás e reler a frase ou o parágrafo. Como que o saboreando, qual delícia ou néctar divino...
Entroncava esta leitura na fase em que eu meditava sobre o que é ou o que resta da chamada cultura europeia. E não pode até deixar de me lembrar de como as coisas mudaram tanto e tão depressa e como muitos, mais cultos e sabedores costumam prenunciar, sem que as devidas avaliações tenham sido efectuadas e saibamos se tais mudanças, foram ou não, vantajosas para as pessoas!
O que é essa coisa de cultura europeia?
Existe mesmo? O que a representa? O que a suporta?
Então não há igualmente uma cultura africana ou uma cultura asiática?
E seremos nós a julgarmo-nos diferentes dos outros ou os outros a acharem-nos distintos deles?
É provável que o conceito de cultura específica seja enformado por uma série de dimensões de natureza comportamental, quantas vezes tão simples que as não valorizamos. O respeito pela vida, certamente, o respeito pela liberdade ou o respeito pela igualdade, uma cortesia genérica, o sentido estético... E isso ressalta quando face à pena de morte se ouvem europeus, norte-americanos, árabes ou chineses.
Mas sob o ponto de vista antropológico, pese embora a noção das diversas especificidades, o que se passa à escala global entre as juventudes que partilham redes informáticas e gostos, de estilísticos à música, passando pelos jogos e língua (quer o inglês, quer a simbologia nos teclados), alerta para uma mudança cultural que está aí sobre nós.
Na aparência inocente, estamos às portas da mais colossal revolução a que a civilização humanoide conheceu e viveu.
O discurso dominante não é mais parcelar, setorizado, nacionalizado ou relativizado.
O norte de África, o Egito, a Síria ou a Turquia vivem convulsões e mudanças que vão chegar já à Europa, bem mais avassaladoras, dramáticas e mortais do que as amostras vividas.
“A realidade cultural do planeta é a de um arquipélago de culturas”, escrevia Eduardo Lourenço no tal livro, citando Samuel Huntington, mas esse arquipélago tende a evoluir para um continente único, aproximando as ilhas primeiro e depois fundindo-as num só território.
Com uma Europa em Crise e em perda, ao ideal político europeu não corresponde já uma cultura europeia viçosa e forte. Ao ideal político europeu corresponde apenas um ideal económico contraditório, dividido entre nacionalistas e pró-migrantes, apesar do euro e contra o euro.
O que serviu para meditar e associar e que conduziu à construção de uma Europa pós-guerra, o modelo actual, parece escoar-se como água entre os dedos de uma mão, a caminho de extremos no seu seio e que a implodirão a curto prazo.
Oxalá a cultura europeia, mais do que nos poder salvar, possa sobreviver para memória futura.

Registe-se

news events box

Mais lidas