Jornal Médico Grande Público

Desafios da comunicação  médico-doente no sistema  de saúde atual
DATA
02/03/2017 14:30:10
AUTOR
Jéssica Perpétuo - Interna de MGF na USF Horizonte – ULS Matosinhos
ETIQUETAS

Desafios da comunicação médico-doente no sistema de saúde atual

No início do internato de Medicina Geral e Familiar (MGF), rapidamente constatei que a comunicação era um pilar fundamental na consulta médica e essencial para a construção da relação médico-doente. 

Assim, procurei especializar-me nesta área, de forma a aprimorar as minhas técnicas de comunicação. Finalizada a pós-graduação em comunicação clínica, regressei à unidade de saúde familiar (USF) ansiosa por praticar todas as técnicas e ferramentas que me tinham sido sabiamente ensinadas. No entanto, a transição entre a formação académica e a sua aplicabilidade prática nem sempre é fácil e linear, e compreendi que teria que enfrentar várias dificuldades para estabelecer uma comunicação médico-doente satisfatória para ambos.

O funcionamento do nosso atual sistema de saúde impõe vários desafios à comunicação com o doente: tempo limitado de consulta, com no máximo 15 a 20 minutos, o nosso “amigo” computador com os seus múltiplos programas informáticos (e respetivas falhas) e os seus mil e um cliques que temos que realizar (alguns, arrisco-me a dizer, de pouca utilidade clínica para o nosso doente), as diversas queixas médicas que precisamos de orientar, as numerosas requisições na nossa lista de utentes a meio da consulta… Para além disso, devemos lidar com estímulos muitas vezes presentes como o toque do telefone, interrupções no gabinete por engano...

Pois bem, pergunto-me muitas vezes como é possível responder às emoções e construir uma relação satisfatória com os meus doentes, explicar com cuidado um plano terapêutico ou lidar com os doentes mais ”difíceis” ou “exigentes”, quando estamos numa constante corrida contra o tempo e cada vez com mais tarefas para realizar?

A comunicação é parte essencial da consulta médica, devendo ser considerada como parte integrante da medicina praticada na atualidade

A comunicação clínica é uma tarefa árdua e difícil numa era de constante informatização e requisitos profissionais, sem dúvida, mas fundamental no ato clínico. É a base da relação médico-doente, motivo pelo qual se espera que seja eficaz. A sua prática hoje é aceite como uma componente essencial da aprendizagem clínica, tornando-se fundamental a sua inserção nos currículos de formação dos profissionais de saúde. Apesar de todas estas barreiras, o uso de boas competências em comunicação leva a uma maior satisfação com o ato clínico, uma maior adesão terapêutica e à adoção de estilos de vida mais saudáveis. Já competências inadequadas de comunicação clínica poderão estar associadas a uma maior taxa de abandono do plano terapêutico e um maior número de queixas por má prática clínica.

Quando o doente recorre à nossa consulta para expor a sua situação, este tem necessidade de ser ouvido, compreendido e de se sentir “sentido”. Precisa de encontrar um médico com disponibilidade de o escutar, de responder adequadamente às suas preocupações, de alguém que contenha as suas preocupações e angústias. Ou seja, a maior parte dos nossos doentes procura compreensão empática, mais do que um exame complementar de diagnóstico ou um fármaco.

Assim, mesmo com todos os seus entraves diários, a comunicação é parte essencial da consulta médica, devendo ser considerada como parte integrante da medicina praticada na atualidade e são necessárias estratégias por parte do médico para conciliar a comunicação clínica com as múltiplas exigências da consulta.

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