Jornal Médico Grande Público

Desculpem, mas eu li: Excesso  de hospitalocentrismo
DATA
02/03/2017 15:57:57
AUTOR
Rui Cernadas - Médico de família
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Desculpem, mas eu li: Excesso de hospitalocentrismo

Até fora da área estrita da Saúde surgem já referências ao peso excessivo que os hospitais têm no nosso sistema de saúde.

Mesmo percebendo a raiz latina da nossa cultura e forma de ser, o paradigma hospitalocêntrico está em crise há muito anunciada e não só por questões de financiamento público…

Ainda assim, não se pode ignorar nem deixar de lamentar a assimetria também na distribuição e afetação dos recursos humanos, com quase 80% deles alocados aos hospitais e pouco mais de 20% aos cuidados de saúde primários (CSP)…

A Organização Mundial de Saúde sublinha a mudança de paradigma que fez reduzir a procura de cuidados por doenças agudas, infeciosas e nutricionais, e aumentar o peso das doenças crónicas e da necessidade da sua gestão.

Os intervenientes têm de compreender que a reorganização em causa precisa de acompanhar a evolução dum modelo essencialmente curativo para um novo preditivo e preventivo.

A oferta hospitalar não pode acompanhar e muito menos antecipar as mudanças na procura que a quebra da natalidade, o aumento da longevidade, as taxas de sobrevida em comorbilidades e a gestão da doença crónica determinam nos países ocidentais.

Os CSP têm amplo, conhecido e publicitado trabalho desenvolvido na elaboração dos planos de saúde, os quais permitem sem margem para dúvidas ou hesitações, conhecer as especificidades das necessidades e determinantes em saúde, traçando ao centímetro os cenários sobre os quais se deve ou não concentrar o esforço da oferta assistencial e a procura e obtenção dos ganhos em saúde.

Tratam-se inclusivamente de documentos estruturantes fundamentais, em particular, no âmbito dos procedimentos de contratualização externa e interna.

De resto, a oferta hospitalar deveria articular-se com a acessibilidade e a proximidade dos CSP e com a avaliação, a cada momento, das necessidades em saúde da população afeta a cada instituição.

O direito à escolha livre pelos utentes, para além de dever ser acompanhado pela indispensável discussão e reorganização dos modelos de financiamento hospitalar e das unidades locais de saúde, em particular e com urgência diria até, pode fazer sentido, mas o que os utentes e os familiares e cuidadores pretendem é a garantia de um processo de referenciação claro e que possa e deve ser acompanhado e explicado pelo médico de família!

Mais de metade da atividade cirúrgica realizada nos hospitais portugueses é já realizada em ambulatório, resultando em menos custos para o sistema, maior conforto para os utentes e menor risco para os doentes.

Isto é uma razão estrutural para conduzir à redução da oferta de camas hospitalares.

Voltando às camas hospitalares desativadas ou aprofundando a sua discussão, o envelhecimento populacional e as comorbilidades podem acentuar uma procura relativa, em especial quando as urgências são pressionadas, aconselhando-se por consequência uma nova lógica de previsão e gestão das disponibilidades das lotações em função sazonal ou ocasional.

Talvez assim, um novo circuito conceptual do modelo hospitalar possa ser mais elástico e suscetível de capacidade de resposta a cada momento e realidade.

Esta abordagem não deveria impedir ou cercear uma reflexão sobre os mecanismos do hospitalocentrismo para os nossos cidadãos.

Os argumentos fáceis de que as tecnologias disponíveis nas urgências são polarizadoras, ou que a segurança do atendimento hospitalar excede a mera disponibilização do médico na relação com o doente, parecem exageradas.

Mas, na verdade não se estudaram inequivocamente os fluxos da procura, por exemplo, a partir de regiões ou ACES que, de desde há muito conseguiram atribuir um médico de família a cada cidadão. Ou esses fluxos também não foram avaliados em função da coincidência ou não com os horários de funcionamento dos CSP…

Enfim, muitas questões para estudar a sério e ponderadamente.

Estamos numa aldeia global e a saúde tornou-se central nas preocupações dos países e dos povos europeus.

Não há sociedades desenvolvidas que não sejam saudáveis.

E por isso, sem dogmas nem verdades prévias, discuta-se o que há para discutir.

A começar pelo paradigma hospitalocêntrico.

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