Jornal Médico Grande Público

Desculpem, mas eu li: A respeito da iatrogenia em CSP
DATA
24/04/2017 16:54:52
AUTOR
Rui Cernadas - Médico de família
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Desculpem, mas eu li: A respeito da iatrogenia em CSP

A verdade é que muitos falam de prevenção, mas poucos a praticam, diria a abrir este comentário.

O cenário atual tem contornos demográficos importantes e as comorbilidades em contexto de múltiplas doenças crónicas obrigam a uma séria atenção médica. Acresce também a noção de internamentos frequentes neste tipo de pacientes, com passagem comum pelos serviços de urgência e atendimento por médicos menos diferenciados e de menor competência integradora dos cuidados dispensados.

São crescentes na bibliografia as referências a preocupações com a iatrogenia, sobretudo em idosos, embora se trate de uma questão longitudinal. As recomendações são claras e apontam para a necessidade de revisões regulares e sistemáticas das medicações em curso, incluindo o recurso a automedicação, suplementos alimentares, produtos não sujeitos a receita médica e produtos dietéticos, bem como à ponderação da relação risco/benefício em todas as ocasiões de decisão médica de prescrição farmacológica.

Há ainda o problema dos doentes que recebem cuidados de múltiplas instituições e/ou de vários clínicos, com obrigação de alguém dever fazer a integração das mesmas - e quem melhor posicionado para isso do que o médico de família?

Isto serve para recordar alguns pontos práticos que não nos devem passar despercebidos no quotidiano e designadamente entre os doentes com menor autonomia ou retidos no domicílio.

Por exemplo, as quedas em idosos e o potencial de risco com a utilização de benzodiazepinas nesta faixa etária e que atinge dimensões consideráveis e perigosas. Ou os efeitos hipotensores ortostáticos de variados fármacos ou até as perturbações visuais induzidas por medicamentos de uso vulgar. Para além de efeitos digestivos, renais ou hepáticos induzidos por anti-inflamatórios não esteroides ou a interação destes com diversos grupos de anti-hipertensores.

A iatrogenia medicamentosa é, em minha opinião, também uma questão de cidadania.

Será preciso aumentar, entre os cidadãos - doentes e cuidadores - e entre os profissionais de saúde, a consciência do conhecimento e informação sobre o risco dos medicamentos e a segurança do doente em geral.

O enquadramento social, cultural e económico tem óbvias implicações. Mas, o principal eixo passa pela aposta na relação médico-doente e na capacidade de aprofundar o diálogo e a audição da história clínica, com aproveitamento das competências da equipa multiprofissional de saúde nas unidades funcionais do SNS, no aprofundamento das relações no seio da família e a sua corresponsabilização e, no envolvimento das farmácias enquanto agentes de proximidade e de dispensa de medicamentos.

De facto, ao contrário do que pensamos sempre, cada um de nós tem doentes em condições de urgente revisão da prescrição farmacológica em curso. E temos doentes a quem mantemos medicamentos ditos inapropriados.

A ideia de “desprescrever” deixou de ser um mito ou um mero conceito especulativo e passou a ser uma realidade que não devemos ignorar, nem esquecer. Como em muitas coisas, há que ter coragem de assumir mudanças e esta, centrada na iatrogenia, parece-me umas das tais em que ou começamos já, ou corremos o risco de sermos mais dia, menos dia, tragicamente apanhados por uma “avalancha” de problemas e de litígios

Como li por aí(1), um novo olhar sobre este tema pelos profissionais de saúde é indispensável e só assim poderemos dar um contributo à “inclusão social e ao resgate de cidadania” dos nossos utentes mais idosos.

(1) Vasconcelos, M, Grillo, MJC, Soares, SM. Organização do processo de trabalho na atenção básica à saúde: Tecnologias para abordagem ao indivíduo, família e comunidade. Belo Horizonte, Editora UFMG; NESCON/UFMG, 2008

 

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