Jornal Médico Grande Público

O envelhecimento das listas dos médicos de família: estaremos realmente preparados?
DATA
06/06/2017 12:28:18
AUTOR
Adília Isabel Rafael - Interna de Formação Específica em MGF. USF Sete Caminhos, ACES de Gondomar
ETIQUETAS

O envelhecimento das listas dos médicos de família: estaremos realmente preparados?

Iniciei o meu Internato em Medicina Geral e Familiar em janeiro de 2014, mas foram precisos poucos meses para perceber que uma grande parte do tempo de consulta era consumido por uma população dita geriátrica, bem no centro de um concelho urbano. 

Atendendo à realidade nacional, rapidamente senti necessidade de me especializar nesta área; para isso, ingressei no Curso Internacional de Geriatria Clínica com vista a aprimorar os conhecimentos e competências necessários a uma boa prática da Geriatria, em particular no que se refere à prevenção, rastreio e reconhecimento precoce das doenças mais frequentes nesta faixa etária, bem como do tratamento adequado.

O envelhecimento é caracterizado pela incapacidade progressiva do organismo de se adaptar às variações do ambiente. Na vida de um ser humano, podemos dizer que há uma primeira fase muito importante (fase reprodutiva) e uma segunda fase que diz respeito ao envelhecimento (fase pós-reprodutiva). Será possível envelhecer e morrer de “boa saúde”? A verdade é que podemos ser jovens e envelhecer jovens. Envelhecer não é sinónimo de adoecer; uma doença é algo que surge por acaso e constitui-se no grande inimigo do Homem.

Hoje em dia é possível lermos diversos artigos científicos com amostras populacionais quase centenárias, algo que não acontecia num passado bem presente. Contudo, o envelhecimento não é uma experiência homogénea, encontrando-se muito mais diferenças entre a população geriátrica do que em faixas etárias mais jovens, fruto das vastas experiências de vida que transformam o indivíduo num ser único.

A “meia-idade” representa uma etapa fundamental na preparação de um envelhecimento saudável. É nesta altura que o médico pode intervir numa abordagem direcionada e questionar como pensa aquele indivíduo viver “depois” ou que plano(s) tem para a sua reforma. Com a chegada da reforma, poderá haver necessidade de redefinir os objetivos sociais, devendo estes ser incentivados. Atualmente existem diversos idosos que vivem sozinhos, representando famílias do tipo unitária. Uma das tarefas fundamentais do Médico de Família é o conhecimento da sua comunidade e dos seus recursos. Só assim é possível abordar o idoso no seu contexto e utilizar os recursos dessa mesma comunidade para o apoiar.

Os traços básicos de um idoso mantêm-se ao longo da vida, embora, no contexto social do envelhecimento, quando os adultos mais idosos comparam o seu ego atual com o do passado, a perceção seja mais de crescimento do que de declínio. Há diversos estereótipos no envelhecimento tais como “os velhos não têm memória” ou “ser velho é ter demência” ou ainda “ser velho é ser doente físico e mental” e normalmente ninguém se agrada quando é tratado com “novas palavras” que levem a pensar no envelhecimento em curso.

Quantos de nós, sobretudo os jovens, já pensaram sobre isto? É indispensável, pelo menos nalgum momento da nossa vida, refletir sobre o envelhecimento. O envelhecimento é universal mas é crucial que o mesmo seja personalizado.

 

Registe-se

news events box

Mais lidas

1
1