Jornal Médico Grande Público

Desculpem, mas eu li: o que aprender com a hepatite C
DATA
06/06/2017 12:42:47
AUTOR
Rui Cernadas - Médico de família
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Desculpem, mas eu li: o que aprender com a hepatite C

A hepatite C pode ser, a muitos títulos e sob vários prismas de observação e estudo, uma importante lição em termos médicos, políticos e de comunicação.

Tratando-se claramente de um problema grave de saúde pública, a hepatite C enquanto epidemia, no mundo dito ocidentalizado (existe isto na era da globalização sem limites?) terá evoluído em duas vagas.

Uma primeira, em torno dos anos 70 e 80 do século passado, aquando das “histórias” do sangue e dos derivados contaminados – que levaram a profundas e dramáticas consequências – e à necessidade da alteração do paradigma de colheita e tratamento destes produtos.

A elaboração e a introdução de produtos de rastreio e de procedimentos rigorosos quanto ao sangue foram sendo aplicadas, progressivamente, em todo o mundo desde o final da década de 80 e ao longo da década de 90. Os indivíduos infetados com os materiais transfundidos estão ainda por aí e são vítimas inocentes e pacíficas duma ignorância compreensível, pouco aceitável e muito lamentável.

Mas não ficamos por aí.

Tivemos uma segunda vaga, entretanto, com as drogas injetáveis. Esta iniciou-se ainda pelos anos 80, como se a Humanidade quisesse manter em aberto e em permanência qual chaga de sofrimento, individual e coletiva e contagiosa…

O consumo de drogas por via endovenosa veio fazer disparar as taxas de prevalência e alguma da inércia do poder político em relação a esta questão, pese a clareza dos argumentos científicos e médicos, contribuiu para o disparar da infeção.

As hesitações e as incertezas em torno das liberdades e dos direitos individuais, enquadradas em políticas – ética e moralmente de nível gradualmente inferior – conduziram centenas de milhares de pessoas a uma situação epidémica, clinica e socialmente miserável.

A infeção pela hepatite C, num contexto de morte prematura e sofrimento global, talvez nem acrescente muito face ao peso das restantes causas identificáveis, como as overdoses, a violência e o homicídio, o suicídio, o alcoolismo crónico, as prisões, a cirrose hepática não viral, o VIH… O sistema prisional sim, onde se reconhecem os problemas no interior das grades, naturalmente incluindo os outros problemas de saúde no campo das doenças infecto-contagiosas.

A verdade insofismável é que, em pouco tempo, de facto, a hepatite C passou de epidemia silenciosa a tema de primeira página e de abertura televisiva das notícias, em todos os canais. Cá e um pouco por todo o lado.(1)

Os recursos afetados e investidos no tratamento da hepatite C com os novos fármacos conduziram à revolução no panorama anterior. A cura e a prevenção das complicações da doença hepática avançada, oncológica ou não, igualmente muito dispendiosas e complexas, tornaram-se um marco em definitivo.

O problema é que nada aprendemos com esta história.

Gastar no tratamento da hepatite C, usar os recursos que os cidadãos pagam pelas suas contribuições e impostos, sem perceber que as determinantes estruturais, sociais e económicas da saúde não se alteraram o suficiente, é desperdiçar e esperar, sentados, pela próxima infeção similar…

 

Referências:
1. Tyndall M. Editorial. CMAJ, oct 20, 2015, 187 (15)

 

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