Jornal Médico Grande Público

“Doutor, quero fazer o exame à próstata!” – Um rastreio envolto em incertezas
DATA
29/11/-0001 23:23:15
AUTOR
Eduardo Reis - Interno de Formação Específica de MGF. USF Sete Caminhos
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“Doutor, quero fazer o exame à próstata!” – Um rastreio envolto em incertezas

Segundo a publicação “Doenças Oncológicas em números – 2016” o carcinoma da próstata (CaP) é o que apresenta maior incidência em Portugal, havendo portanto necessidade de um rastreio eficaz. Contudo, à luz da evidência atual, esse “tal” rastreio ainda não é consensual. Perante o exposto, como devemos agir perante os nossos utentes?

Durante algum tempo, o antigénio específico da próstata (PSA) foi usado como rastreio tendo contribuído para o aumento da deteção desta neoplasia, com impacto na morbilidade associada ao processo diagnóstico e terapêutico. Porém, o rastreio com base no doseamento do PSA é controverso, o que tem conduzido várias sociedades científicas internacionais a não recomendarem a adoção de um rastreio com base no PSA como medida de saúde pública. Os dados existentes são de tal maneira inconsistentes que levantam a possibilidade de um sobrediagnóstico que conduz a tratamentos excessivos. Mesmo o rastreio oportunístico levanta reservas por parte das sociedades científicas gerando controvérsia e falta de consenso.

A Direção-Geral da Saúde (DGS) publicou uma Norma de Orientação Clínica (NOC) intitulada “Prescrição e determinação do antigénio específico da próstata – PSA”, atualizada em julho de 2017, que continua a levantar incertezas... Embora a recente NOC já refira quais os fatores de risco a ter em conta, nomeadamente a idade, origem étnica e hereditariedade, definindo CaP hereditário quando três ou mais familiares diretos foram diagnosticados antes dos 55 anos, mantém-se dúbia a seguinte questão, entre outras: “No rastreio oportunístico da determinação de PSA devem ser incluídos os utentes assintomáticos com idades compreendidos entre os 50 e os 75 anos”, sendo omissa no caso da esperança de vida do utente ser inferior a 10 anos mesmo dentro desta faixa etária.

Se analisarmos algumas sociedades científicas internacionais, encontraremos recomendações algo díspares. A European Association of Urology estabelece que a determinação do PSA na deteção precoce do CaP possa ser usada para identificar grupos de homens em risco e com necessidade de maior acompanhamento, nomeadamente homens com > 50 anos, homens com > 45 anos com história familiar de CaP, afro-americanos, homens com níveis de PSA > 1 ng/ml aos 40 anos ou > 2 ng/ml aos 60 anos. Deve ser oferecida uma estratégia individualizada de deteção precoce do CaP adaptada ao risco aos homens devidamente informados e com bom estado geral, com pelo menos 10 a 15 anos de esperança de vida, não colocando limites de idade. Segundo a American Urological Association, entre os 55 e os 69 anos, a decisão de determinar o PSA deve envolver a avaliação dos benefícios da prevenção da mortalidade por CaP contra os danos potenciais conhecidos associados ao seu diagnóstico e tratamento. Assim, recomenda fortemente uma tomada de decisão partilhada para os homens nesta faixa etária que estão a considerar o referido rastreio, procedendo-se de acordo com os valores e preferências do doente. O rastreio a homens com 70 ou mais anos, ou em qualquer homem com menos de 10 a 15 anos de esperança de vida independentemente da idade, não é recomendado. Já a U.S. Preventive Services Task Force não recomenda o uso da determinação do PSA em qualquer idade ou circunstância.

Tendo em conta estas discrepâncias, verifica-se que são ainda muitas as dúvidas que pairam sobre o rastreio do CaP bem como as controvérsias sobre o tema. Contudo, uma vez que já estamos perante uma versão recente da NOC, parece-me que sejam essas as recomendações que devemos seguir na prática clínica. No entanto, ainda permanecem omissas algumas questões. Nestes casos continuamos sem respostas “acertadas” e as dúvidas permanecem, levando a imperar o princípio de “cada cabeça, sua sentença”. 

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