Jornal Médico Grande Público

Eu, tu, nós e o médico de família
DATA
17/08/2017 12:21:00
AUTOR
Mariana Cunha Moura - Interna de Formação Específica de MGF. USF Sete Caminhos
ETIQUETAS

Eu, tu, nós e o médico de família

Na prática da Medicina Geral e Familiar somos quotidianamente confrontados com um elevado número de queixas vagas e indiferenciadas, com sintomas dificilmente “encaixáveis” em quadros nosológicos conhecidos, com a persistência das queixas mesmo após a instituição da terapêutica considerada correta, conduzindo a uma sobreutilização desadequada dos serviços de saúde. 

Um número significativo destas queixas parece relacionar-se com fatores de ordem psicossocial provenientes dos vários sistemas em que os indivíduos se inserem, com particular relevo para o sistema familiar. Deste modo, as problemáticas relacionadas com o casal/a família podem estar na origem de queixas inespecíficas, entre as quais, dificuldades na transição do ciclo de vida, insatisfação sexual, monotonia/desinteresse na relação, expectativas frustradas quanto à relação, relações extraconjugais, influência da família de origem, gestão das tarefas domésticas. Assim, saliento o papel do médico de família (MF), que tem de estar alerta para conseguir “despistar” a verdadeira causa da sintomatologia referida.

Não tenho intenção em cunhar de forma idiossincrática ou tendenciosa a dinâmica dos relacionamentos, mas sim de fazer uma analogia em perspetiva geral e não científica do convívio amoroso entre duas pessoas nos dias de hoje. 

Nota-se que as pessoas estão constantemente à procura de fazer ligações na sua vida para encontrar alguém para namorar, casar ou formar uma família. Há evidências de que existe um desejo natural na busca pelo outro. E quando há o encontro, simplesmente há! É um momento de indiferenciação. Há promessas e há a idealização do outro. Os dois dançam no mesmo ritmo. Em determinado momento, um dos dois, ou ambos, iniciam um processo de diferenciação, sai da idealização do outro. O relacionamento pode entrar numa fase marcada por conflitos constantes. O casal tem que ser criativo ou então acaba envolto pelo condicionamento social que os une.

Em todas as etapas de uma relação, o MF tem um papel imprescindível. O uso de boas competências de comunicação clínica na relação médico-utente e sobretudo a forma como é feito, determina o sucesso de uma consulta, de uma intervenção e, principalmente, de uma relação terapêutica eficaz. Apesar de grande parte da população reconhecer os profissionais de saúde como interlocutores preferenciais na discussão da sexualidade, a sua abordagem, infelizmente, fica muito aquém do que seria necessário. As dificuldades são várias e prendem-se, entre outras, com as limitações de tempo de consulta por utente, de falta de preparação específica e, ainda, da vergonha/embaraço. Nesse sentido, para ultrapassar estas barreiras e melhorar a abordagem, há que saber comunicar com os nossos utentes de uma forma inteligente, demonstrando respeito e sempre livre de preconceitos e juízos de valor.

Por tudo o que refiro, a interação dos casais durante a consulta, os assuntos que tendem a “esconder” por vergonha, mas em que a necessidade de os dizer é iminente, despertou em mim o interesse de compreender melhor a funcionalidade dos casais e das famílias. O lugar privilegiado que temos nos cuidados de saúde primários permite-nos criar essa ligação com os utentes e assim ajudá-los em todas as esferas dos seus problemas, inclusive, os mais íntimos, destacando a sexualidade. Se aspetos como a alimentação, o sono e o exercício são avaliados numa perspetiva holística e individualizada, a saúde sexual também deve ser assim abordada. Por este motivo, ingressei na dupla pós-graduação em terapia de casal e sexologia clínica, interessando-me cada vez mais por esta temática e tendo a certeza que vai ser uma mais-valia para enriquecer a gestão e o apoio das famílias/casais.

Devido à infinita multiplicidade de diferentes culturas, épocas ou outras variantes, sabe-se que a tarefa em fixar leis de comportamento humano é difícil. Mas há algo sempre permanente em qualquer ser humano: a vontade de amar e de ser amado!

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