Jornal Médico Grande Público

Desculpem, mas eu li: fibrilação auricular,  insuficiência cardíaca…
DATA
03/11/2017 15:55:38
AUTOR
Rui Cernadas - Médico de família
ETIQUETAS

Desculpem, mas eu li: fibrilação auricular, insuficiência cardíaca…

A prevalência de doenças como a insuficiência cardíaca (IC), a obesidade, a diabetes ou a síndrome de apneia obstrutiva do sono, num contexto de acentuado envelhecimento populacional, coloca questões significativas à Saúde na perspetiva do Estado, e naturalmente, um peso complexo ao nível dos cuidados hospitalares (e necessidades de internamento ou cuidados continuados e criação e desenvolvimento de unidades ou clínicas de dia) e dos cuidados de saúde primários (CSP).

No plano da fibrilação auricular (FA), por exemplo – que é apenas a arritmia mais frequente e com um prognóstico pouco favorável, estando claramente associada ao aumento do risco de acidente vascular cerebral (AVC) – as estimativas são preocupantes. O problema é aqui o da necessidade de procurar, com urgência, elevar a proporção de doentes diagnosticados, tendo em conta sobretudo os que evoluem com formas silenciosas de fibrilação.

Medidas oportunísticas de rastreio são, por isso, indispensáveis a uma abordagem estratégica e relevam a conveniência de apostar, de vez, na forma preventiva dos CSP, concedendo tempo, muito mais tempo, para as chamadas respostas programadas e com potencialidade para se transformarem em “diagnósticos alargados de problemas de saúde”.

Outro ponto fulcral, e no mesmo sentido, respeita à IC, tida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como a epidemia da segunda parte da metade do século XXI... Será bom lembrar que, apesar da idade se correlacionar com a IC – os dados referem 1% aos 65 anos e até 20% depois dos 80 anos –, o facto da diminuição da mortalidade na fase aguda da doença coronária aponta para, em conjunto com a eficiência terapêutica aumentada nas grandes patologias do coração, torna a IC como um importantíssimo alvo das estratégias preventivas nos CSP.

Um SNS que se quer manter como referencial para os portugueses, enquanto serviço público e pilar essencial à cidadania, não pode deixar de se centrar e apostar nos CSP. E não por meras palavras de carácter programático ou político. Mas por um argumentário racional e científico, e contornos orçamentais e financeiros, realistas mas concretos e decisivos.

É por isso que, quer para a fibrilação auricular, quer para a IC, há que definir séria e urgentemente estratégias e compromissos de intervenção preventiva, suscetíveis de enquadrar as tendências de evolução demográfica e de saúde pública e responder aos desafios quotidianos, em especial das urgências hospitalares.

Basta recordar o impacto destas patologias, bem como da doença pulmonar obstrutiva crónica, por exemplo, nos surtos gripais que, ano após ano, encharcam os serviços de saúde e os internamentos e salas de observação e cuidados intensivos, com milhares e milhares de doentes afetados pelos vírus gripais sazonais, não obstante o investimento maciço na vacinação e em linhas telefónicas.

Pessoalmente, considero que aquela estratégia precisaria de assentar em alguns pilares fundamentais e que passo a equacionar:

  • Diagnóstico precoce e rastreios oportunísticos;
  • Correção de todos os fatores predisponentes ou precipitantes de cronicidade;
  • Instituição de terapêutica médica otimizada e individualizada;
  • Referenciação hospitalar adequada e concertada com os diversos níveis de cuidados;
  • Integração destes pacientes em programas de gestão clínica longitudinal e sua monitorização atenta;
  • Criação de unidades ou clínicas temáticas e de dia, articuladas e disponíveis nos respetivos hospitais e que previnam quer a referenciação em exagero, quer o encaminhamento ou a procura espontânea dos serviços de urgência, como conhecemos.

Ou seja, não se inventa nada. 

São ideias e medidas – seguidas lá por fora – e que se chamam por exemplo “clínicas de insuficiência cardíaca”...

É que é sempre diferente falar ou fazer…

 

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