Jornal Médico Grande Público

Prevenção quinquenária: um nível de prevenção esquecido?
DATA
03/11/2017 15:49:18
AUTOR
Marina Carneiro - Interna de MGF
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Prevenção quinquenária: um nível de prevenção esquecido?

“A grandeza de uma profissão é talvez, antes de tudo, unir os homens: não há senão um verdadeiro luxo e esse é o das relações humanas”.
Antoine de Saint-Exupéry

Classicamente são descritos vários níveis de prevenção, da primordial à quaternária, que se centram na vertente biopsicossocial do doente e na relação médico-doente. Atualmente, descreve-se ainda um novo nível – a prevenção quinquenária - que pretende prevenir o dano para o paciente, atuando no médico1 no sentido de evitar fenómenos de burnout.

A síndrome de burnout é definida como uma síndrome de esgotamento emocional, despersonalização e baixa realização pessoal e vários estudos têm vindo a mostrar a sua elevada prevalência nos profissionais de saúde e o consequente impacto nas suas atividades2. As consequências revelam-se não só a nível pessoal e inter-relacional como também ao nível dos serviços no que toca à qualidade de prestação dos cuidados de saúde1,2.

Diariamente é-nos exigido “mais, melhor e com menos recursos”, as nossas ações são direta ou indiretamente medidas e consequentemente somos pressionados a ser mais efetivos e eficientes. Contudo, não sendo o profissional de saúde estanque, além dos mais variados desafios diários, ora clínicos, ora burocráticos, existe ainda a vertente pessoal e familiar que não pode ser menosprezada. Enquanto interna de Medicina Geral e Familiar (MGF) tenho vindo a aperceber-me ao longo destes anos que é inevitável não nos envolvermos pelas situações do dia a dia no âmbito do nosso local de trabalho e que invariáveis vezes nos acompanham na nossa vida pessoal e familiar.

Neste novo nível de prevenção descrito pretende-se atuar através da criação de estratégias que conduzam à evicção do erro que poderá ocorrer durante o exercício profissional de médicos atualizados e que cumprem os fundamentos éticos e que surge de uma deterioração do bem-estar biopsicossocial do médico.

Várias estratégias em diferentes esferas (médico, paciente/comunidade, local de trabalho, administração/Governo) estão já descritas1, porém é necessário que se coloquem em prática de forma generalizada, no sentido de, em última análise, prevenir o dano no paciente atuando no médico. Contudo, e apesar de tanto se falar das consequências do burnout, pouco tem sido feito para a sua prevenção como parte da prevenção de problemas de saúde para os doentes.

Neste sentido, torna-se fundamental o investimento na melhoria das condições laborais e dos horários de trabalho, modelos de gestão que preservem o bem-estar e a boa prática clínica do médico, que vão indiretamente combater o burnout e tornar o Sistema Nacional de Saúde mais eficaz e saudável, sem negligenciar os profissionais que o mantém funcionante. A implementação de medidas, quer a nível individual quer a nível das próprias equipas, nomeadamente a realização de exercício físico em contexto laboral, comemoração de datas significativas para e com a comunidade, criação de momentos de partilha, por exemplo no início de cada reunião, entre outras atividades, vão diretamente contribuir para a prevenção quinquenária.

Sendo as medidas preventivas um dos alicerces fundamentais da atividade médica diária, é fundamental não nos esquecermos de nós próprios, uma vez que se não cuidarmos de nós não conseguiremos cuidar dos outros.  

 

Bibliografia:

  1. Santos JA. Prevenção quinquenária: prevenir o dano para o paciente, atuando no médico; Rev Port Med Geral Fam 2014;30:152-4
  2. 2. Maslach, C. et al. Maslach burnout inventory. CPP, 2006.
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