Jornal Médico Grande Público

Ações Paliativas em MGF: gestos de todos
DATA
03/11/2017 17:26:08
AUTOR
Margarida Sampaio Leite - Interna de Medicina Geral e Familiar USF Brás-Oleiro – ACES Gondomar
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Ações Paliativas em MGF: gestos de todos

Nunca gostei da palavra “paliativos”, nunca demostrei interesse nesse estágio e não achava que tivesse vocação para trabalhar com “esse tipo de doentes”. 

Mas, afinal esta minha antipatia traduzia apenas um profundo desconhecimento sobre esta área.

Quando aceitei o convite para integrar uma Equipa de Cuidados Continuados Integrados no meu ACES, fui obrigada a lidar com “esse tipo de doentes”, ter formação na área, pensar no assunto e mudar de opinião.

A verdade é que a maioria dos médicos de família não teve formação em cuidados paliativos e não crê que seja da sua competência o seu desempenho. Mas parece-me, pelo contrário, que a Medicina Geral e Familiar tem aqui um papel de destaque, beneficiado pelo conhecimento profundo do doente ao longo de toda a sua vida, do seu agregado, ambiente familiar e da sua casa. Afinal somos “só” nós que entramos em casa dos doentes. E “esse tipo de doentes” são os nossos doentes dos cuidados de saúde primários: os idosos acamados com demência ou insuficiência cardíaca, os doentes que há 20 anos recusaram estudo endoscópico para investigação de uma anemia ou uma pesquisa de sangue oculto nas fezes positiva. Muitas vezes, são doentes não rotulados como paliativos, mas que partilham um prognóstico escasso e o direito a cuidados de conforto no seu fim de vida. E no fim de contas acho que já todos realizámos ações paliativas neste tipo de doentes.

As ações paliativas são abrangentes a todos os profissionais de saúde e implicam principalmente a aplicação dos princípios básicos dos cuidados paliativos, ou seja, o controlo e gestão de sinais e sintomas (como dor, dispneia, perturbação do sono, anorexia, alterações do trânsito intestinal, diurese e lesões da pele), a comunicação com o doente e família e a gestão das suas expectativas.

Alguns exemplos mais práticos do nosso dia a dia passam pela simplificação da terapêutica farmacológica e pelo uso sensato de dispositivos médicos.

E é na parte da terapêutica que me parece que podemos fazer mais, prescrevendo menos. A simplificação terapêutica traduz-se em menos interações medicamentosas, menos rigidez de horário para os cuidadores e menos transtorno para o doente quando já existem dificuldades na deglutição. E se há fármacos que entendemos como cruciais e que não devem ser suspensos, há outros cujo benefício enfraquece quando estamos perante uma esperança de vida encurtada, como por exemplo uma estatina ou um anti-hipertensor.

No que respeita aos dispositivos médicos, sabemos que o bom senso também deve imperar, pelo que um doente alectuado só deve ser portador de sonda vesical se esta se justificar, por retenção urinária ou para tratamento de lesões da pele da região perineal ou sagrada. Mas a recusa na colocação de uma sonda nasogástrica é foco de maior discórdia, já que implica mudar comportamentos, porque falamos na interrupção de um ato cultural e de amor – o ato de alimentar um familiar. E uma vez que ninguém quer deixar o seu familiar “morrer à fome”, cabe ao médico de família “trabalhar” com os cuidadores e explicar a diminuição das carências nutricionais em fim de vida, o agravamento da agitação do doente quando em contenção física para evitar remover uma sonda, o consequente maior uso de sedativos para o seu controlo e uma menor mobilização do mesmo no leito. Nem a evicção de pneumonia de aspiração justifica o uso de sonda nasogástrica, uma vez que a sua utilização aumenta o refluxo de conteúdo gástrico, na tentativa de contrariar uma estase e inércia gástrica que se mostram evidentes num corpo com menos necessidades.

Classificar um doente como paliativo não significa desistir, mas sim alterar objetivos e expetativas, integrar a família nos cuidados, privilegiando o conforto em detrimento da hipermedicamentalização e cuidar sem se procurar a cura, mas em vez disso a qualidade de vida dos dias ainda pela frente. Gestos que afinal são praticados por todos nós.

 

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