Jornal Médico Grande Público

A ajuda dos doentes no Plano de Cuidados
DATA
14/02/2018 12:33:04
AUTOR
João Antunes - Interno de formação específica em Medicina Geral e Familiar - USF Brás Oleiro
ETIQUETAS

A ajuda dos doentes no Plano de Cuidados

As preocupações do doente (a sua dolência) e as preocupações do médico (que constrói raciocínios clínicos de acordo com as doenças que estudou) nem sempre são coincidentes.

Idealmente, uma consulta médica deve estar estruturada de forma a permitir que haja consenso entre os pontos de vista destes dois intervenientes, médico e doente. Após a fase inicial de receção e acolhimento, o médico deverá ouvir os motivos de consulta que o doente pretende que sejam abordados, negociar prioridades e agendar os temas que serão abordados naquela consulta. Seguidamente, fará a entrevista clínica centrada no doente – explorando as suas crenças e as suas emoções – e depois a entrevista centrada no médico – isto é, irá colocar perguntas mais específicas de que precisa para melhor poder caracterizar aquele sintoma ou sinal, o contexto familiar, etc. Seguir-se-á o exame físico e, após a elaboração das hipóteses de diagnóstico, o médico irá propor um Plano de Cuidados.

Por vezes, fico com a sensação de que nesta fase da consulta – o Plano de Cuidados – o papel do doente como interveniente é frequentemente descurado. Regra geral, acredito que nós médicos estamos formatados mentalmente para exercer a nossa milenar atividade prescritora. O facto de estudarmos exaustivamente os tratamentos de cada entidade clínica, faz-nos esquecer que o doente tem, grande parte das vezes, as suas próprias estratégias para lidar com os problemas. Lembro-me de uma senhora idosa que, a par de outros motivos de consulta, se queixou na minha consulta da sua sensação de ansiedade e da sua “aflição no peito”. Depois de explorar as condições que poderiam estar na origem dessa sua ansiedade, acabei por fazer aquilo que parecia estar premeditado – prescrevi uma benzodiazepina. Na consulta seguinte perguntei-lhe como estava, mas a senhora confessou-me que não tinha chegado a comprar o fármaco: disse-me que quando lhe ocorriam essas aflições, ia para o “quintal cuidar das plantas, que isso é que me dá paz!”.

Como interno de Medicina Geral e Familiar, tenho sentido que os algoritmos diagnósticos e terapêuticos que estudo, as normas de orientações clínica e até os indicadores de qualidade por vezes me distanciam da realidade, isto é, o doente que está à minha frente. A resposta para aquela queixa vem à minha mente de forma quase automática, porque já a li em qualquer lado, e esqueço que o doente tem ainda uma palavra a dizer, e as suas soluções podem ser mais eficazes e incrivelmente criativas.

Frequentemente me dizem no final da consulta “isto deve ser nervos, não deve, doutor?”. A maior parte das vezes valido essa hipótese, e acredito que os doentes saem do consultório mais calmos, porque apenas precisavam de uma validação para a explicação a que eles próprios chegaram.

O papel do doente na hora de elaborar um plano não se esgota nestes pontos que referi. Além da ajuda que o doente representa para si mesmo, ele também pode ser uma grande ajuda para o médico. Vivemos no mundo da informação e devemos admitir que, apesar de serem abundantes as fontes de conteúdos imprecisos, os cidadãos estão hoje mais bem informados do que a geração dos nossos avós. Quantas vezes, ao terminar a consulta, o doente me pergunta se não deve tomar a vacina da gripe, se não deve fazer a colpocitologia, se não deve efetuar este ou aquele rastreio. Considero essas perguntas uma mais-valia para a minha prática clínica, e frequentemente admito: “já me ia esquecer, ainda bem que me perguntou”.

Em suma, tenho procurado encarar o doente como meu aliado quando estabeleço o Plano de Cuidados. Acredito que isso facilita o empoderamento do doente no seu autocuidado e facilita-me a mim na hora de tomar decisões.

Registe-se

news events box

Mais lidas