Jornal Médico Grande Público

O exame físico que também é terapêutico
DATA
15/02/2018 11:19:51
AUTOR
Rita M. Oliveira - Médica interna de formação específica de Medicina Geral e Familiar na USF Lagoa – ULS Matosinhos e Membro do Grupo de Investigação Senhora da Hora
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O exame físico que também é terapêutico

Com os tempos de consulta cada vez mais limitados em Medicina Geral e Familiar (MGF) – e as múltiplas tarefas que nos vão sendo cada vez mais exigidas no nosso dia a dia – o exame físico é frequentemente reduzido ao essencial: é um sinal de Murphy renal em caso de disúria, ou uma auscultação pulmonar se tosse? Odinofagia? Basta observar a orofaringe à procura de exsudados… Se tem dor plantar é certo que é uma fasceíte, quase que nem vale a pena olhar o pé.

 

A experiência clínica vai-nos tornando cada vez mais eficientes. Pobres internos que procuram sinais meníngeos a toda e qualquer criança com uma unha encravada.

Muitas vezes esta prática tem uma razão de ser. É que a história clínica é uma ferramenta poderosa e muitas vezes (quase) suficiente para estabelecer um diagnóstico. Um exemplo é a combinação de disúria e urgência urinária na ausência de corrimento e irritação vaginal que apresenta um valor preditivo superior a 90% para o diagnóstico de infeção do trato urinário baixo não complicada.1

Outras vezes, o exame físico faz mais mal do que bem ou, pelo menos, bem não está provado que faça: é o caso dos exames mamário ou ginecológico em mulheres assintomáticas conforme mostra a U. S. Preventive Services Task Force.2,3

Subvalorizamos, no entanto, o efeito terapêutico que o exame físico encerra em si. Querem tranquilizar a Sofia de que os episódios de dor no peito são da cabeça e não do coração, quando nem a auscultam? Ou convencer a Manuela de que as habituais dores de cabeça são enxaquecas, e não um tumor cerebral supermaligno em expansão, se não se dedicam a realizar um exame neurológico?

Numa sociedade cada vez mais literada e com acesso a múltiplas fontes de informação, não é preciso ser mestre em Medicina para saber quais as “10 causas mais invulgares de cefaleia”. Nisso, o Dr. Google (des)ajuda! Já observar, auscultar, palpar ou percutir – e interpretar – são competências intrínsecas do médico, muito procuradas pelos doentes. E por mais que a tecnologia ajude, não há exame que tranquilize mais do que as palavras do seu médico de confiança. E ainda mais, se forem proferidas após um exame físico atento.

Por isso, não subestime o exame físico. Perder tempo a examinar (mesmo quando estamos seguros do que vamos encontrar, na maioria das vezes, nada) é a confirmação de que sabemos o que estamos a dizer, quando dizemos à Sofia que a dor no peito não é do coração.

 

 
Referências bibliográficas:
1. Bent S, and al. (2002). Does this woman have an acute uncomplicated urinary tract infection? JAMA, 287 (20), 2701-2710. Disponível em: https://www.med.unc.edu/medselect/files/uti2.pdf (Acedido: 20 Set 2017).
2. U. S. Preventive Services Task Force (2016). Screening for Breast Cancer: A Systematic Review to Update the 2009. Disponível em: https://www.uspreventiveservicestaskforce.org/Page/Document/final-evidence-review140/gynecological-conditions-screening-with-the-pelvic-examination (Acedido: 9 Set 2017)
3. U. S. Preventive Services Task Force (2017). Final Evidence Review: Gynecological Conditions: Periodic Screening With the Pelvic Examination. Disponível em: https://www.uspreventiveservicestaskforce.org/Page/Document/final-evidence-review140/gynecological-conditions-screening-with-the-pelvic-examination (Acedido: 9 Set 2017).

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