Jornal Médico Grande Público

Formação e mais formação, será esta a solução?
DATA
28/02/2018 16:07:59
AUTOR
Nuno Miguel Pestana Guerra - Interno de formação específica em Medicina Geral e Familiar USF Camélias e ACES Gaia
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Formação e mais formação, será esta a solução?

Recentemente estive num fórum (cuja plateia era maioritariamente composta por médicos de família) onde se discutiu o ponto de situação do tratamento da dor em Portugal. Após os tópicos abordados, a mensagem sonante que pairou no ar foi que se tinha de continuar a apostar na formação dos médicos de família (MF). Não existirão outras estratégias das quais nos estejamos a esquecer?

 

É frequente ouvir-se nos congressos, reuniões formativas e afins, que uma das soluções para a melhoria dos cuidados de saúde em determinada área passa pela formação dos MF nessas temáticas. Se repararmos bem, não há serviço hospitalar que não organize umas jornadas a eles dirigidas onde, frequentemente, os conteúdos programáticos acabam por não ser abordados da perspetiva da Medicina Geral e Familiar, mas sim hospitalar. Com tanta dedicação na organização de eventos formativos (que eu não deixo de considerar relevante), acaba por faltar organização dentro dos serviços hospitalares de modo a aproximar profissionais de saúde que estão fisicamente distantes e que dialogam quase unicamente através de um frio e cru Alert® P1. Não é necessário descobrir a “roda” para começarmos a estreitar laços comunicacionais, basta pegar nos bons exemplos de integração de cuidados de saúde que já existem no Serviço Nacional de Saúde (SNS) e replicá-los.

Imaginem que cada serviço disponibilizava formalmente um número de telemóvel para onde se poderia ligar de modo a esclarecer dúvidas clínicas que nos surgem? Não levaria isto a uma melhoria global de cuidados?

Vejam por exemplo a criteriosidade/qualidade da referenciação à consulta hospitalar. Certamente que surgindo alguma dúvida que nos deixasse no impasse de referenciar ou não o doente, o contacto direto com o colega hospitalar seria crucial para a respetiva orientação, além de ser sempre um momento de aprendizagem e troca de experiências. Esta proximidade de contato é muitas vezes mais eficaz em termos formativos do que as clássicas formações que vão sendo realizadas e permite, em tempo real, identificar situações que necessitem de uma observação hospitalar mais precoce ou mesmo o envio ao serviço de urgência. Dentro desta temática não poderia deixar de referir a ausência de critérios de referenciação à consulta hospitalar (salvo raras exceções), que tenham sido construídos e formalmente aprovados entre os agrupamentos de centro de saúde e os vários serviços hospitalares de referência. Claro está que este trabalho seria muito time consuming, mas será que não seria uma ferramenta útil para a prática do MF tendo em conta a diversidade de patologias que surgem diariamente na sua consulta?

Obviamente que esta problemática não se deve unicamente aos cuidados hospitalares, mas também aos responsáveis dos cuidados de saúde primários, que muitas vezes não promovem nem divulgam apropriadamente as linhas de comunicação já existentes, junto das unidades de saúde. Tentemos sentar à mesa todos os agentes de cuidados de saúde de modo a analisar, projetar e executar medidas realistas, integrativas e ajustadas ao contexto local e nacional de saúde.

Termino em tom provocatório. Em todos os congressos, fóruns, reuniões e afins, escuta-se a total disponibilidade dos colegas hospitalares em dar formação aos MF. O que acham de se usar parte deste tempo na integração de cuidados, criando, a título de exemplo, linhas formais de comunicação e aproximação de cuidados? Sairíamos todos mais “ricos” no final, mas o principal beneficiado seria o doente.

P.S.: A meio desta reflexão descobri um programa promovido pela ACSS (Administração Central dos Sistemas de Saúde) para incentivar a integração de cuidados. Deixo-vos o link: http://www.acss.min-saude.pt/2017/04/12/programa-de-incentivo-a-integracao-de-cuidados/

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