Jornal Médico Grande Público

Não esqueça a dor, porque quem tem dor não esquece!
DATA
27/03/2018 11:55:32
AUTOR
Maria Helena Moreno - Interna do 3.º ano de Medicina Geral e Familiar na USF Arco do Prado - ACES Gaia
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Não esqueça a dor, porque quem tem dor não esquece!

Quem nunca sentiu dor? Quem nunca procurou alívio da dor? Quem não tem aquele doente que apresenta dor de forma persistente e nos pede recorrentemente ajuda? Temos todos!

Segundo a Internacional Association for the Study of Pain, a dor é descrita como uma experiência sensorial e emocional desagradável associada a uma lesão tecidular real ou potencial ou assim percecionada como dano. Muitas vezes, no nosso dia-a-dia, lidamos com situações de dor, seja ela nociceptiva, neuropática ou psicológica e nos 15-20 minutos de consulta que temos disponíveis, tentamos eliminar esta dor, medicando com paracetamol “aqui” ou com um anti-inflamatório “ali”, sem realmente contextualizarmos esta dor. A dor nociceptiva é originada nos nociceptores mecânicos, térmicos e químicos, junto da área física em que ocorre o estímulo que a origina. A dor neuropática é uma dor provocada por uma lesão ou uma doença do sistema nervoso. Por último, a dor psicológica é uma dor de origem emocional, podendo ser muito incapacitante e de difícil tratamento.

Quando tive oportunidade de acompanhar uma equipa de cuidados continuados, fui obrigada a lidar com o tema “dor” de forma muito séria, ter formação sobre o assunto e olhar para os doentes com outros olhos. A verdade é que a maioria dos médicos de família não teve formação em cuidados continuados e não crê que seja da sua competência o controlo da dor. Além disso, as listas de utentes têm cada vez mais idosos e, considerando que nesta faixa as queixas de dor são mais frequentes, torna-se premente a atualização individual neste tema.

A dor é muito real e retira grande parte da qualidade de vida aos nossos doentes. Muitos afirmam estar “habituados à dor”. Isto é viver? Não faz parte da vida conseguirmos fazer aquilo de que gostamos sem limitação? Muitas vezes esquecemo-nos da dor neuropática muito comum em idosos e que existe na diabetes, no membro parético no pós-AVC, no membro fantasma após amputação. “O cão a ferrar”, “a água quente a escorrer pelas costas", “o alfinete ardente que espeta", “o formigueiro dos pés que não me deixa dormir": todas estas expressões dos nossos doentes que todos os dias nos tentam explicar a sua dor, sendo quase impossível colocar em palavras.

O seguimento de doentes em cuidados continuados fez-me desenvolver esta ânsia de saber mais sobre a dor. E trazer nem que seja um pouco de alívio faz de nós mais humanos em compaixão com o outro. Faz parte do nosso dever médico ouvir os nossos doentes e procurar ir ao encontro das suas necessidades, controlando sempre as suas expetativas. Existe um mercado enorme para o controlo da dor. Urge perder o medo e atacar a dor de frente.

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