Jornal Médico Grande Público

Desculpem, mas eu li! Da saúde ao ambiente
DATA
27/03/2018 11:59:18
AUTOR
Rui Cernadas - Médico de família
ETIQUETAS

Desculpem, mas eu li! Da saúde ao ambiente

Em boa verdade, a nossa saúde depende em boa parte dos bons tratos que lhe saibamos premiar, descontados que sejam os testamentos genéticos dos progenitores.

 

 

É por isso que, o investimento em prevenção, ou em educação para a saúde, seriam certamente dinheiros bem investidos e capazes de gerar, a prazo, resultados que o conceito clássico de pôr dinheiro em cima dos problemas não obvia.

Podemos discutir, reflectir, melhorar ou implementar sucessivas Lei de Bases que, tanto esforço, por mais louvável e sentido que o seja, é e será sempre insuficiente e inconsequente a não apostar nos antípodas da estratégia vigente de cobertura da despesa em tratamento…

O ambiente é igualmente um vetor muito relevante e sabemos, sem equívocos, os malefícios nas grandes e poluídas cidades da América do Sul ou da Ásia.

A geração e a distribuição de substâncias e produtos que deterioram a camada de ozono e elevam o nível de radiação ultravioleta ou provocam a acidificação de águas e terrenos ou afectam os níveis qualitativos mostram apenas como o problema é já global e obriga a medidas urgentes. O aumento geral das concentrações de metano ou de dióxido de carbono estima-se que possa crescer de 50 a 80% até por volta de 2050.

A aposta, em particular no Velho Continente, pode ajudar a minimizar o problema e a beneficiar-nos até um pouco mais tarde. Mas não é uma solução global e não poderá manter-se isolada de uma política à escala planetária.

As medidas como a da defesa de rios e lagos, com redução da sua poluição e contaminação, o controlo no plano dos fertilizantes, pesticidas e adubos, a insistência na melhoria dos sistemas de tratamento e gestão de águas residuais e resíduos urbanos e biológicos, o reforço da promoção dos diversos tipos de reciclagem são essenciais para a saúde humana.

Faz sentido, como nunca, a discussão do impacto na saúde dos problemas ligados ao ambiente. E acrescentaria ao clima, por consequência e arrastamento, a subida do nível médio dos oceanos ou o aquecimento global e as catástrofes extremas…

Em Portugal não poderemos esquecer o ano de 2017 e a mais de uma centena de vidas perdidas em incêndios florestais devastadores e nunca vistos!

A limitação do acesso a água potável ou pelo menos de qualidade aceitável, a repercussão na condição respiratória e desenvolvimento de asmas e alergias várias, o cancro da pele e de outros órgãos ou localizações, os efeitos sobre a esperança de vida e a mortalidade, são algumas – apenas – das muitas implicações identificadas de modo breve e superficial na saúde das populações.

Se associarmos a este cenário, já de si muito pouco brilhante, outros vetores negativos ou perturbadores, tais como o ruído urbano ou industrial, a contaminação biológica, a dispersão de espécies animais ou vegetais não autóctones ou o desenvolvimento de espécies em função das características ligadas ao aquecimento climático, as migrações por quaisquer razões, a grande pressão causada pela desertificação de muitos territórios e superconcentração populacional sobre os litorais e as grandes cidades ou a livre e rápida circulação de pessoas e bens, de vírus ou bactérias, vemos como o futuro pode ser bem preocupante.

A começar pela capacidade e sustentabilidade financeira dos serviços de saúde, como o Serviço Nacional de Saúde (SNS), e dos Estados em última análise.

Por quanto tempo mais poderá a economia – as economias dos diversos países – assegurar o bem-estar global a que os seus cidadãos se habituaram, em especial, gerando procura e hábitos de consumo que apenas desencadeiam efeito dominó sobre a pressão na utilização de recursos naturais e pessoas?

E em que medida isso permitirá o equilíbrio – algum equilíbrio – sobre os orçamentos e o financiamento dos serviços públicos de cuidados de saúde?

Registe-se

news events box

Mais lidas

1
1