Jornal Médico Grande Público

Depressão e ansiedade na DPOC
DATA
19/04/2018 14:47:14
AUTOR
Lara Lopes
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Depressão e ansiedade na DPOC

É muito frequente na doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) a comorbilidade com patologias psiquiátricas, nomeadamente, depressão e ansiedade. Não é de estranhar esta ligação tão próxima entre estas patologias. Ainda antes de desenvolver DPOC, é necessário o doente entrar em contacto com o tabaco e a substância aditiva que é a nicotina. Esta relação é, por si própria, mais propensa ao desenvolvimento de doenças psiquiátricas, mas também é comum que os portadores de doença mental sejam fumadores.

Ao desenvolver DPOC, surgem limitações físicas com condicionamento da autonomia, diminuição do contacto social, cansaço, alterações do sono, da autoimagem e do apetite. Ter uma doença crónica sem cura e com uma evolução que se pode revelar fatal é suficiente para espoletar ansiedade ou deprimir qualquer pessoa. Mas é um facto que a DPOC partilha mecanismos biológicos que alicerçam e mantêm os sintomas de depressão e ansiedade mesmo no indivíduo anteriormente sem patologia mental. Acresce a dificuldade que estes doentes têm em deixar de fumar e a culpabilização de terem mantido um hábito nefasto.

É, por isso, importante que os profissionais de saúde procurem ativamente os sintomas que indicam o desenvolvimento de depressão e ansiedade nestes indivíduos. Há várias ideias que devemos desmistificar: o estigma para a doença mental, assumindo que o cérebro é, como qualquer outro órgão, vulnerável a diversas doenças; que qualquer um de nós pode ter doença mental; que se deve tratar uma depressão ou ansiedade causada por uma doença crónica; que a doença mental tem tratamento eficaz e, por vezes, até uma cura; que os psicofármacos na sua maioria não são aditivos e, utilizados na forma adequada, permitem uma melhoria da qualidade de vida; e, por último, que as psicoterapias são eficazes. É fundamental explicar ao doente que a própria DPOC cria mecanismos de ação que podem espoletar ansiedade e depressão. Este passo permite que o doente tenha uma maior consciência destas vivências e aumenta a probabilidade de procurar de ajuda.

Dado que as queixas físicas da depressão e da ansiedade se sobrepõem aos sintomas da DPOC, é necessário procurar outras pistas para estas patologias. Observar se o doente tem uma expressão facial maioritariamente triste, se tem preocupação em excesso, se está desinteressado do que se passa à sua volta, se não tem qualquer tipo de interesses, se prefere não ter visitas, se apresenta desesperança face à doença, se está lentificado, se tem dificuldades de concentração, se descuida o tratamento como forma de autopunição, se pensa sobre morrer e como se imagina nesse processo ou se tem planos para se suicidar faz ponderar estes diagnósticos. Procurar estas respostas implica um envolvimento do profissional com o doente que privilegia o estabelecimento de confiança. O terapeuta necessita de tempo para o doente e capacidade para aceitar que este chore, exponha os seus medos, ultrapasse a sua vergonha enquanto simultaneamente oferece apoio, esperança e sigilo. Quando de alguma forma surge a dúvida sobre o estado mental do doente, é importante pedir o apoio especializado para que assim seja prestado o melhor cuidado possível.

Saúde Pública

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