Jornal Médico Grande Público

Aleitamento materno: uma dança a dois
DATA
25/05/2018 15:38:05
AUTOR
Rita Matos
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Aleitamento materno: uma dança a dois

O nascimento de um filho é uma experiência única. Novos e constantes desafios surgem após o nascimento. Uma das primeiras decisões a tomar é como alimentar o recém-nascido. As suas necessidades energéticas, nutricionais e hídricas são satisfeitas pelo leite materno, para além do benefício que resulta da transmissão de inúmeras substâncias protetoras e imunomoduladoras.

A Organização Mundial de Saúde e Sociedade Europeia de Gastrenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica recomendam o aleitamento materno em exclusivo durante o primeiro semestre de vida, altura, a partir da qual, está indicada a introdução de alimentos complementares.O aleitamento materno associa-se a um menor risco de otite média, gastroenterite aguda, infeções respiratórias baixas severas, dermatite atópica, asma, obesidade, diabetes tipos 1 e 2, leucemia, síndrome de morte súbita no lactente e enterocolite necrotizante.

Além de todas as vantagens para o lactente, o aleitamento materno promove a involução uterina, reduzindo assim o risco de hemorragia, permite uma recuperação mais célere do corpo da mãe após o parto e diminui a incidência de algumas patologias, tais como o cancro da mama e do ovário, osteoporose, diabetes tipo 2 e artrite reumatoide.

Há ainda a salientar que a ligação emocional entre mãe e filho, que se estabelece durante a amamentação, contribui também para uma menor incidência de depressão pós-parto. A nível ambiental, o aleitamento materno permite também poupar recursos, é prático e conveniente, não implica preparação, aquecimento ou esterilização de material.

As diversas vantagens que esta forma de alimentação oferece são amplamente conhecidas, pelo que, como profissional de saúde e mãe, esta é também a minha escolha. No entanto, a decisão de amamentar pode ser difícil de se concretizar. As expetativas que se criam em relação a amamentação são muitas, mas só depois da primeira mamada é que surgem as dúvidas. Afinal, amamentar é uma competência que se aprende.

Alguns estudos portugueses apontam para uma alta incidência do aleitamento materno. Mais de 90% das mães portuguesas iniciam o aleitamento materno; no entanto, quase metade das mães desistem durante o primeiro mês de vida do bebé.

O sucesso do aleitamento materno depende da interação e da cooperação mútua entre a mãe e o bebé. Trata-se de uma valsa na qual cada um dos intervenientes emite sinais ao outro, sinais esses que são descodificados, dando origem a comportamentos de resposta adequados, conduzindo a uma adaptação cada vez mais rica e complexa. Naturalmente que cada mulher não consegue prever como reagirá perante a amamentação. No meu caso pessoal, apesar de conhecer a fisiologia antecipadamente, a teoria não foi suficiente para a vivência prática bem-sucedida da amamentação.

Os cursos de preparação para o parto – disponíveis em alguns agrupamentos de centros de saúde (ACES) – oferecem às futuras mães uma excelente oportunidade para obterem toda a informação correta e atualizada, desmistificando preconceitos. Na maternidade, os enfermeiros colaboram na adaptação do recém-nascido à mama, logo após o nascimento. Mas, após chegar a casa da maternidade, surgem as verdadeiras dificuldades (má pega, fissuras mamilares, dor e ingurgitamento mamário). O sentimento é de frustração e de desamparo. Assim, o apoio do enfermeiro (idealmente o que terá acompanhado o casal em toda a preparação para a parentalidade e parto) é imprescindível. Médicos e enfermeiros, com competências acrescidas nesta área, garantem a qualidade e o sucesso da amamentação. Cabe-nos a nós, profissionais de saúde, apoiar todas as mães que desejem amamentar, seja através do acompanhamento regular no pós-parto na maternidade, seja através da visita domiciliária, recorrendo ao enfermeiro e ao médico de família nos primeiros dias após o parto.

Tal como eu, que consegui ultrapassar as dificuldades e concretizar o sonho de amamentar a minha filha, através do apoio de um profissional de saúde, também me sinto mais preparada para, dando o meu testemunho, apoiar outras mães que o pretendam fazer. Não chega esclarecer os pais acerca das vantagens e da técnica da amamentação na teoria. É no ato em si que podemos ser úteis e suportar os primeiros passos desta dança entre mãe e recém-nascido.

(Agradecimento: À Enf.ª Cecília Mendes, CMIN)

Referências Bibliográficas:

- Inês Tomada, Margarida Nazareth. Vantagens do Aleitamento Materno. Associação Portuguesa de Nutrição.

- Guerra A et al. Alimentação do lactente. Acta Pediatr Port, 2012, Vols. 43(2):S17-S40.

- Leonor Levy, Helena Bértolo. Manual de Aleitamento Materno. Comité Português para a UNICEF, 2012.

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