Jornal Médico Grande Público

Desculpem, mas eu li! A agonia dos CSP
DATA
25/05/2018 15:45:03
AUTOR
Rui Cernadas
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Desculpem, mas eu li! A agonia dos CSP

Há quem não note, mas ou anda distraído ou está de baixa de longa duração, como diz um amigo meu.

Refiro-me ao modo como a saúde tem vindo a ser prejudicada, designadamente pelo não cumprimento da atribuição de um médico de família (MF) a cada cidadão e pela dimensão exagerada das listas de utentes, num cenário em que se burocratizou o trabalho dos médicos e das unidades de saúde familiar (USF).

A qualidade de prática assistencial caiu e tendo em conta as crescentes necessidades em saúde, os jovens MF, numa época em que se assumem como o rejuvenescimento da carreira da Medicina Geral e Familiar (MGF), pagam uma tremenda factura de desilusão, de falta de reconhecimento e de absoluta indiferença de quem os devia estimular e motivar.

A formação médica é boa, ainda, mas uma cultura de desempenho de elevado rigor e de grande humanidade, está em perigo e ameaça entrar em coma.

Primeiro foi a destruição da carreira, a par duma proletarização dos médicos que nunca quiseram perceber, depois a degradação dos serviços e do Serviço Nacional de Saúde (SNS)!

Depois, foi a persistência ou manutenção de situações de iniquidade para os cidadãos e os profissionais, com USF e Unidades de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP) ou pequenas extensões, sem condições nem equipamentos capazes de comparação ou de eficiência, viabilizando remunerações diferentes.

E enfim o que ninguém quer ver. Se o ritmo de constituição de USF é nulo e o ano de 2017 foi uma homenagem aos zeros nos cuidados de saúde primários (CSP), a verdade é que isso não aconteceu apenas pela falta de apoios à gestação das novas equipas, mas sobretudo pela falta de entusiasmo, de mescla de experiência e juventude, pelo esgotamento dos profissionais no seu conjunto, pelo desânimo e tristeza que grassa pelos Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES)…

O ritmo de aposentações vai acelerar na MGF e até 2025 vão deixar os quadros cerca de 1.500 médicos, isto é, aproximadamente um quarto do total de profissionais médicos ativos e integrados nos CSP.

O problema, ao contrário do que sucedeu durante anos, não está no facto de não haver – entretanto – outros jovens especialistas prontos para iniciar funções no SNS.

A questão é dupla e precisa de resposta e de estratégia. Por um lado, a substituição de alguém implica sempre adaptação e integração e na Medicina precisa ainda de experiência e de treino, o que na nossa especialidade é muito mais acrescido em função da amplitude saberes e de competências, de requisitos e de demanda! Mas por outro lado, o Ministério não coloca médicos em número superior ao necessário ou indispensável, pelo que as saídas por aposentação nunca coincidirão com a entrada dum novo clínico ou vice-versa, o que a reformulação do dimensionamento das listas poderia ajudar, mesmo que temporariamente, a resolver ou minimizar.

As ilusões perdidas são, em regra, aquelas que mais recordamos.

É caso para lembrar e evocar essa Coordenação Nacional da Reforma dos Cuidados de Saúde Primários que vinha para promover a Reforma.

Que lhe aconteceu, reformou-se primeiro?

Em combate não morreu, até porque nem se deu por qualquer disputa.

Da conceptualização à execução prática vai sempre uma enorme distância. Distância que carece de trabalho, de esforço e de persistência, ultrapassando em muito o verbo e o discurso, sendo até na realidade o único vector que faz a diferença e que constrói história.

A estagnação a que os CSP foram votados, sem valorização dos contributos dos médicos e, obviamente, dos restantes profissionais – e num contexto de absoluta falta de dinâmica política e operacional – é trágica.

E imperdoável!

Os cidadãos que reconheceram no SNS a mais importante conquista ou avanço civilizacional nos últimos 35 ou 40 anos, claramente a mais significativa e universal das medidas do regime republicano pós-25 de Abril, poderão continuar a ser enganados, mas não poderão perdoar o que fizeram aos CSP e ao SNS.

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