Jornal Médico Grande Público

Prevenção Quinquenária: é imperioso agir!
DATA
13/07/2018 18:03:23
AUTOR
Isabel Amorim
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Prevenção Quinquenária: é imperioso agir!

Como interna de formação específica de Medicina Geral e Familiar (MGF), tenho perfeita consciência de que um dos focos do meu exercício médico é e será a promoção da saúde e a prevenção da doença. Para além da prevenção primordial, inerente às leis governamentais, as atividades preventivas médicas descritas na literatura agrupam-se em quatro outros níveis: a primária, a secundária, a terciária e a quaternária.

No entanto, recentemente, surgiu um novo paradigma de prevenção: a quinquenária. Esta tem como “motor de ação” a prevenção do dano no doente, atuando no médico. De facto, a prevenção quinquenária coloca o médico no centro da atenção. Este não é mais visto como um robot prestador de cuidados de saúde, mas sim um ser humano também em risco de esgotamento físico e emocional. O burnout médico não é mais do que uma síndroma de exaustão emocional, despersonalização e perda de realização pessoal. Segundo um estudo a nível nacional e publicado na Acta Médica Portuguesa, em 2016,   em 1.728 profissionais de saúde (466 médicos e 1.262 enfermeiros), 21,6% apresentaram burnout moderado e 47,8% burnout elevado. Neste âmbito, a prevenção quinquenária visa ser uma tentativa de resposta ao reconhecimento do burnout enquanto fator de risco não só do bem-estar biopsicossocial do médico, mas, sobretudo, do erro médico honesto e, consequentemente, da qualidade dos cuidados de saúde prestados. 

A primeira questão com que nos debatemos é: quais os motivos deste flagelo? Na minha perspetiva, todos os dias, os médicos veem as suas capacidades testadas ao limite, em grande parte devido às imposições governamentais e administrativas dos serviços de saúde. Temos como exemplos ilustrativos as consultas “a metro” em tempo muito reduzido; o número crescente de utentes por médico de família; a sobrecarga de horas extraordinárias, muitas vezes mal remuneradas e sem descanso compensatório; a carência de recursos humanos e materiais; a burocratização crescente de procedimentos; entre tantos outros.

De facto, o conceito de “trabalhar para números” como meio de garantia da maior acessibilidade dos utentes aos serviços de saúde pode ser uma das principais ameaças à qualidade dos cuidados prestados com repercussão global no estado de saúde do utente. Assim, a segunda questão emergente é: a qualidade dos cuidados de saúde está a ser devidamente valorizada e avaliada?  Por conseguinte, surge a questão essencial: o que pode ser feito para evitar o burnout médico?

Na verdade, da mesma forma que os profissionais de saúde, aquando da abordagem dos utentes dependentes, devem estar alerta para o risco de sobrecarga do cuidador, também a sociedade em geral e as entidades governamentais e administrativas em particular não devem menosprezar o potencial esgotamento do médico, também este um cuidador por excelência. Assim, tem surgido na literatura diversas estratégias que visam a prevenção do burnout e/ou evicção dos erros médicos. Esta intervenção deve contemplar quatro domínios: o médico; o utente/comunidade; o local de trabalho e a administração/governo. Quanto ao médico, é importante que este se esforce por estabelecer uma comunicação eficaz com os utentes e uma adequada gestão do tempo que tem disponível para o exercício das suas funções e, ainda, que tenha algum passatempo que lhe dê gozo como forma de “escape” da rotina laboral.

Relativamente ao utente e comunidade, estes devem ser capacitados para uma adequada utilização dos serviços de saúde e, no local de trabalho, deve-se tentar proporcionar aos que dele fazem parte as condições necessárias ao exercício digno das suas funções. São exemplos a existência de pausas para exercício físico/relaxamento durante o período laboral, a existência de recursos humanos e materiais necessários ou condições físicas adequadas.

Finalmente, cabe às entidades administrativas e governamentais um esforço para o aumento do tempo de consultas, para a redução do número de utentes por lista dos médicos de família, para o desbloqueio dos concursos dos jovens especialistas ou da progressão da carreira médica e, ainda, o pagamento digno dos serviços prestados, inclusivamente, das horas extraordinárias.

As greves de médicos que têm vindo a ocorrer ultimamente não são mais do que o espelho deste descontentamento de quem não se sente valorizado e não é incentivado a fazer o que de melhor sabe: cuidar dos doentes.

Jamais foi este o cenário que idealizei quando sonhei ser médica de família e considero que está na altura das entidades reguladoras da saúde se consciencializarem de que proteger o médico é um dos caminhos para cuidar bem do doente. Mais do que números, somos pessoas e só gostaríamos de ser tratados como tal.

 

Bibliografia:

Marôco, j; Marôco, A L; Leite, E; Bastos, C; Vazão, M J; Campos, J; “Burnout em Profissionais da Saúde Portugueses: Uma Análise a Nível Nacional”; Acta Médica Portuguesa 2016 Janeiro; 29(1):24-30

Mendes, P; Cardoso, V P; Yaph, J; “Stress e burnout em internos de medicina geral e familiar da zona Norte de Portugal: estudo transversal”; Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar 2017;33:16-28

 

Saúde Pública

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