Jornal Médico Grande Público

A Medicina Geral e Familiar e as “subespecialidades”
DATA
13/07/2018 18:10:06
AUTOR
André Silva Costa
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A Medicina Geral e Familiar e as “subespecialidades”

A evolução da competência e da formação na Medicina Geral e Familiar (MGF) tem sido exponencial nos últimos anos. Para dar resposta às necessidades da sua lista de utentes, o médico de família (MF) é muitas vezes um autêntico “canivete suíço”.

Os desafios crescentes para o MF implicam uma formação cada vez mais avançada e especializada, abrindo espaço à multiplicidade de Pós-Graduações, Cursos Avançados e Mestrados que vão surgindo e criando todo um mercado florescente.

Seguindo as suas preferências pessoais e competências profissionais, tenta-se por outro lado compensar a degradação que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) tem vindo a sofrer nos últimos anos. Com o aumento dos tempos de resposta dos cuidados de saúde secundários (CSS), vão sendo criadas nas unidades dos cuidados de saúde primários (CSP) as consultas de infiltrações, de doenças respiratórias – asma e doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) –, de prescrição de exercício físico, de dor, de pequena cirurgia.

Será, no entanto, sempre importante refletir se será verdadeiramente este o caminho da MGF. No contexto atual, com listas de cerca de 1.900 utentes, transferir responsabilidades e competências para os CSP, será sempre uma não-discussão. É, no entanto, previsível que a curto/médio prazo toda a população portuguesa tenha MF atribuído e consequentemente seja possível a redução das listas de utentes. Com a eventual mudança de paradigma, como deverá ser rentabilizada essa margem de manobra nos recursos humanos e materiais das unidades de saúde familiar (USF) e unidades de cuidados de saúde personalizados (UCSP)?

Coloca-se também a eventual questão da redução da acessibilidade do utente, uma vez que a grande maioria destas consultas mais específicas são de iniciativa e programação médica, o que poderá levar à redução da disponibilidade para consultas por iniciativa do utente. Para este equilíbrio será importante a análise da prevalência destes problemas de saúde e se justificam a sua abordagem numa consulta diferenciada em CSP.

Os objetivos dos MF passam sempre pela melhoria da qualidade dos cuidados de saúde que prestam à sua lista de utentes. No entanto, para se manter tecnicamente atualizado e ser “bom” em todas as áreas é necessário um esforço diário e quase hercúleo, uma vez que a abrangência dos cuidados de saúde prestados é, e continuará a ser, gigantesca.

Numa altura em que está em discussão a nova métrica para a lista de utentes, podemos ambicionar que esta permita que o MF tenha tempo para o estudo da lista e das atividades preventivas inerentes, que não seja obrigado a fazer a consulta de doentes com múltiplas comorbilidades em 15 ou 20 minutos, que não viva com o sentimento de que podia fazer mais e/ou melhor, sem nunca o fazer.

Saúde Pública

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