Jornal Médico Grande Público

Benzodiazepinas e a sua descontinuação – mais um dilema!
DATA
16/07/2018 12:04:04
AUTOR
Sofia Cardoso e Valter Moreira
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Benzodiazepinas e a sua descontinuação – mais um dilema!

Apesar de já amplamente discutida, a temática da descontinuação das benzodiazepinas (BZD) ainda não se encontra completamente esclarecida, não fossem as dúvidas que se levantam na prática clínica diária. Perante um doente medicado com uma BZD, são várias as razões que nos incitam a descontinuar, algumas mais válidas que outras, e que passam rapidamente pelo pensamento durante uma consulta – desde a indicação clínica e os efeitos laterais, até à pressão constante para redução de custos e cumprimento de indicadores. 

As BZD são agentes sedativo-hipnóticos muito efetivos (pelo menos quando usados por curtos períodos de tempo) no tratamento das perturbações de ansiedade e do sono, entre outros; estão associados ao desenvolvimento de tolerância, com necessidade de aumento da dose do fármaco, desenvolvimento de dependência e potencial abuso.1 A curto prazo, têm como principais efeitos: a sedação, a diminuição da coordenação motora e a diminuição das capacidades de aprendizagem e memória anterógrada.1,2,3 No que toca a efeitos a longo prazo, não está estabelecida uma relação direta entre o uso de BZD e o desenvolvimento de demência, sendo necessária mais evidência para chegar a uma conclusão.4,5

Os efeitos laterais são mais evidentes nos doentes que usam BZD por longos períodos de tempo2,6 e após descontinuação a sua resolução não é imediata, ocorrendo lentamente, estando ainda em estudo se ocorrerá na totalidade.2,7

Assim, no momento de prescrever, vale a pena rever quais as indicações terapêuticas deste grupo de fármacos, e selecionar os doentes que não têm indicação para a manutenção da mesma, pesando sempre a relação custo-benefício.8 A seleção criteriosa dos doentes candidatos à descontinuação gera um grupo de doentes sobre os quais devemos intervir, de forma a tentar uma descontinuação desta terapêutica. Qualquer estratégia adotada deve sempre estar assente numa relação de confiança com o doente, tendo sempre este a autonomia durante todo o processo. Mais do que estabelecer prazos e terapêuticas alternativas, deve-se incentivar o doente a reduzir o consumo destes fármacos, e elucidá-lo sobre os benefícios desta redução ou descontinuação.8  Interessante, é a proposta do National Institute for Health and Care Excellence (NICE) nas guidelines de 2015, que recomenda o envio de uma carta informativa a todos os doentes candidatos à descontinuação, onde se explica, de uma forma simples, os efeitos destes fármacos e os benefícios que se obtêm com a sua descontinuação, com muito bons resultados relatados.8

BIBLIOGRAFIA

  1. Lader M. Benzodiazepines revisited—will we ever learn? Addiction 2011; 106: 2086–109.
  2. Barker M. J., Greenwood K. M., Jackson M., Crowe S. F. Cognitive effects of long-term benzodiazepine use: a metaanalysis. CNS Drugs 2004; 18: 37–48.
  3. Cochrane Database Systematic Reviews. Cochrane.org/reviews/benzodiazepines
  4. Lagnaoui R., Bégaud B., Moore N., Chaslerie A., Fourrier A., Letenneur L. et al. Benzodiazepine use and risk of dementia: a nested case–control study. J Clin Epidemiol 2002; 55: 314–8.
  5. Gray SL, Dublin S, Yu O, et al. Benzodiazepine use and risk of incident dementia or cognitive decline: prospective population based study. BMJ. 2016 Feb 2;352:i90.
  6. Stewart S. A. The effects of benzodiazepines on cognition. J Clin Psychiatry 2005; 66: 9–13.
  7. Kilic C., Curran H. V., Noshirvani H., Marks I. M., Basoglu M. Long-termeffects of alprazolam on memory: a 3.5 year follow-up of agoraphobic panic patients. Psychol Med 1999; 29: 225–
  8. 31.
  9. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Benzodiazepine and z-drug withdrawal. July 2015.

Saúde Pública

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