Jornal Médico Grande Público

“A dor é inevitável, o sofrimento é opcional”
DATA
03/09/2018 17:51:35
AUTOR
Margarida Vaz Pinto
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“A dor é inevitável, o sofrimento é opcional”

A importância de pensar e falar de dor resulta da sua elevada prevalência, continuando a constituir um dos principais motivos de consulta. Por outro lado, sabe-se que o seu tratamento inadequado acarreta enormes custos socioeconómicos e um sofrimento eticamente inadmissível, num período em que dispomos de eficazes meios terapêuticos à nossa disposição.

Uma equipa de investigação da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto realizou um estudo transversal com aplicação de questionário por via telefónica utilizando o método de entrevista assistida por computador, tendo como amostra 5.095 entrevistas validadas. Deste estudo destaco os dados relativos à questão “Porque está pouco ou nada satisfeito com o tratamento da dor?” que revelam que 40% dos motivos são atribuídos ao médico.  Estes resultados podem refletir barreiras quer relacionadas com os profissionais, quer relacionadas com os sistemas de saúde. No que concerne aos profissionais de saúde, estamos todos de acordo relativamente ao conhecimento inadequado e insuficiente que temos sobre a dor, basta olharmos para a nossa formação pré-graduada. Outro ponto em que estaremos de acordo é que nos falta tempo para avaliar corretamente a dor. Falta-nos tempo para olhar para a dor-sintoma, dor-sinal, dor-doença, falta-nos assim tempo para o elemento mais importante da nossa prática clínica: a relação médico-doente.  Por outro lado, e apesar do sofrimento e fragilidade que a dor acarreta, os sistemas de saúde ainda não a consideram uma prioridade, existindo um difícil acesso e disponibilidade para o seu tratamento.

Apesar da identificação clara destas barreiras, o grande desafio ao tratamento da dor passa pelo facto de esta constituir uma experiência sensorial e emocional, dependente de diversos fatores como o sexo, idade, raça, personalidade, contexto sociocultural e religioso. Esta enorme variabilidade da perceção álgica jamais será avaliada por exames auxiliares de diagnóstico por mais sensíveis e específicos que sejam, assim, lidamos e lidaremos com algo que desconhecemos.

Temos assim de admitir as nossas limitações e receios, procurando através da relação médico-doente conhecer e interpretar a dor dos nossos utentes. Adicionalmente, temos de ajudá-los a ler e a lidar com as suas dores, não permitindo, desta forma, que o sofrimento seja relativizado e banalizado.

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