Jornal Médico Grande Público

A heteronormatividade nos cuidados de saúde

A sociedade teve uma evolução rápida, nos últimos anos, fazendo com que questões que, até então, eram ignoradas ou criminalizadas, passassem a ser legalizadas, discutidas, ouvidas. Um desses temas, foi a orientação sexual e as múltiplas formas que ela pode adquirir.

Em 2010 foi aprovado, em Portugal, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e, mais recentemente, em 2016, também a adoção por casais do mesmo sexo passou a ser reconhecida. No entanto, será que isso significa que esta tipologia de casal está totalmente aceite, por nós? E, começando ainda mais atrás, será que isto significa que pensamos nessa possibilidade, em cada consulta?

Tive a oportunidade de apresentar uma revisão sobre a heteronormatividade em cuidados de saúde em dois contextos diferentes e a verdade é que, num desses contextos, a maioria dos médicos considerava que sim, que essa possibilidade estaria implícita em cada consulta. No entanto, os estudos mostram que a realidade populacional poderá ser diferente dessa. Estudos feitos em Portugal, Canadá, África do Sul e Irlanda, portanto, países onde o casamento entre pessoas do mesmo sexo é reconhecido, mostram que ainda existe um caminho longo a ser percorrido. Em alguns destes sítios foi reportada uma incapacidade do médico em lidar com este tema, noutros é referido que foi assumido sempre que os utentes eram heterossexuais e noutros houve, inclusive, discriminação verbal por parte do médico. O que fica patente, na escassa literatura que existe, é que, na grande maioria das vezes, a orientação sexual não é revelada ao Médico de Família (este que é, habitualmente, o primeiro contato com os cuidados de saúde) nem a outro profissional de saúde. E isto, é importante?

A orientação não heterossexual está associada a maiores riscos de saúde, não apenas por eventuais comportamentos de risco, cuja diferença entre grupos se tem vindo a esbater, mas também porque a não aceitação dessa orientação pelo próprio, ou por terceiros, pode levar a perturbações depressivas ou, até, à adoção de hábitos e estilos de vida nocivos. E é aqui que o médico, em especial o Médico de Família, pode fazer a diferença, na medida em que o conhecimento da orientação sexual do paciente está associado a uma melhor relação médico-doente (eventual património da humanidade), com a consequente melhor prestação de cuidados de saúde.

E como é que se isso se faz? De uma forma simples e resumida, consegue-se em 3 passos: não assumir a orientação sexual, não assumir comportamentos sexuais e servir-se de linguagem neutra. Por outras palavras, substituir o “tens namorado/o?” por “namoras?” ou simplesmente perguntar se tem alguém especial na sua vida, dando abertura para que seja o utente a definir o resto. Ao gerar-se um espaço neutro, livre de preconceitos e confidencial estamos a criar um ambiente favorável à prestação de melhores cuidados de saúde, cumprindo assim o juramento que todos fizemos, de respeitar a autonomia e dignidade dos nossos doentes, colocando sempre o seu bem-estar em primeiro lugar.

Bibliografia

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Saúde Pública

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