Jornal Médico Grande Público

"Diagnosticar ou não diagnosticar, eis a questão"

A prevenção quaternária está definida no Dicionário da Wonca1 como “a deteção de indivíduos em risco de tratamento excessivo, para os proteger de novas intervenções médicas inapropriadas e sugerir-lhes alternativas eticamente aceitáveis”. Esta inclui o sobrediagnóstico, conceito de difícil compreensão quer para doentes quer para médicos, e cuja aplicabilidade na prática, nomeadamente enquanto médicos de família, nem sempre é fácil.

O sobrediagnóstico refere-se a fazer um diagnóstico que não é necessário porque o doente não sofreria nenhum sintoma ou dano por essa doença. Este ocorre quando rastreamos uma doença, como por exemplo uma determinada neoplasia, na tentativa de cumprirmos uma das nossas missões enquanto médicos, e especialmente enquanto médicos de família: a prevenção secundária, ou seja, a sua deteção num estadio inicial, quando será mais eficaz o seu tratamento.

Enquanto médicos compete-nos informar o utente sobre a possibilidade de sobrediagnóstico, mas perante uma mulher na faixa etária recomendada para realizar o rastreio de cancro da mama, ou um homem que nos pede "aquele exame da próstata", já no final da consulta, quando temos outros doentes à espera na sala, como procedemos?

Estes conhecimentos não nos parecem novos, mas o facto é que a evidência mostra que não procedemos da forma mais adequada, ao contrário do que poderíamos supor: um estudo2 realizado com pessoas entre os 50-69 anos, concluiu que apenas 9,5% dos doentes foram informados sobre a possibilidade de sobrediagnóstico quando o rastreio do cancro foi discutido.

Se, como médicos, alguns de nós podem considerar que o conceito de sobrediagnóstico é, por si só, um desafio a ser entendido, mais difícil se torna a transmissão do mesmo aos utentes, que esperam que lhes sejam requisitados um número cada vez maior de exames complementares de diagnóstico. No entanto, um outro estudo3 que avaliou os níveis de tolerância dos doentes ao sobrediagnóstico, apurou que estes podem variar amplamente, tornando absolutamente essencial que incluamos uma discussão sobre sobrediagnóstico na tomada de decisão sobre o rastreio do cancro.

Não nos esqueçamos nunca de que, em última análise, o que deve sempre prevalecer é uma decisão compartilhada, que deverá advir de um doente o mais bem informado possível. Se adotarmos esta prática de uma forma sistemática, poderemos vir a ser surpreendidos, mesmo com doentes a quem, à priori, poderíamos pensar que a discussão do assunto não valeria a pena.

Referências:

  1. Bentzen N, editor. WONCA Dictionary of General/Family Practice. Copenhagen: Maanedskift Lager; 2003.
  2. Wegwarth O, Gigerenzer G. Less is more: overdiagnosis and overtreatment: evaluation of what physicians tell their patients about screening harms. JAMA Intern Med. 2013;173:2086-2087.
  3. Van den Bruel A, Jones C, Yang Y, Oke J, Hewitson P. People's willingness to accept overdetection in cancer screening: population survey. BMJ. 2015;350:h980. http://www.bmj.com/content/350/bmj.h980 Accessed March 23, 2015.

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