Jornal Médico Grande Público

Quando a depressão atinge os médicos
DATA
02/10/2018 09:20:23
AUTOR
Sara Matos
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Quando a depressão atinge os médicos

Infelizmente, esta afirmação já não é uma novidade para a comunidade científica: ingressar na carreira médica constitui um fator de risco para a depressão e o suicídio.

As perturbações depressivas configuram, no seu conjunto, um grupo de patologias extremamente prevalente e muitas vezes debilitante. O seu paradigma é o transtorno depressivo major (SDM), cujo diagnóstico se baseia na presença de sintomas associados a humor deprimido e perda de interesse ou prazer, e está associado a alterações somáticas e cognitivas que interferem significativamente com as atividades diárias dos doentes que dele sofrem.

É relevante salientar que uma das manifestações desta patologia é o seu efeito deletério na capacidade de raciocinar, na concentração e na tomada de decisões. Este facto é particularmente preocupante quando consideramos doentes que são, em simultâneo, profissionais médicos, cuja profissão se baseia na tomada de decisões de extrema importância e responsabilidade e de uma grande capacidade de reflexão. Isto significa que, para além dos efeitos nefastos que a depressão provoca em si próprios, nestes casos em particular reveste-se adicionalmente de riscos para terceiros, dada a maior probabilidade de ocorrência de erro médico.

Vários estudos têm vindo a ser realizados numa tentativa de perceber qual a verdadeira prevalência da depressão na comunidade médica.  Uma meta-análise que envolveu 54 estudos abrangendo 17560 internos, publicada em 2015 no JAMA (Mata, DA et al.), revelou prevalências de depressão ou sintomas depressivos durante o internato que variavam entre 20.9% e 43.2%. Esta prevalência aumentava com o tempo (sendo 15% superior ao fim de um ano de internato) e não variou substancialmente entre diferentes especialidades ou países. Os instrumentos utilizados para o rastreio foram diferentes nos vários estudos, havendo também uma diferença nos tamanhos amostrais estudados, o que pode explicar em parte a heterogeneidade de prevalências encontradas. Algumas das causas que têm vindo a ser apontadas para a depressão em médicos internos são o número excessivo de horas de trabalho por semana, a privação de sono e o bullying da parte dos pares. Um outro estudo, realizado por Bourne et al. no Reino Unido em 2015 e que englobou 7926 médicos, demonstrou que o risco de depressão era 77% mais elevado naqueles que tinham recebido uma queixa, para além do risco duas vezes superior de ansiedade e pensamentos sobre comportamentos auto-lesivos.

Os dados relativos ao suicídio não são menos preocupantes. Em 2000, um estudo realizado a nível nacional nos Estados Unidos da América revelou que o risco de mortalidade devida a suicídio e lesões auto-infligidas era 70% superior em médicos (do sexo masculino e raça caucasiana) relativamente a outros profissionais, sendo a oitava causa de morte mais prevalente. Um dado surpreendente é o risco bastante maior de suicídio encontrado em mulheres médicas relativamente à população em geral. Em 2004, uma meta-análise realizada por Schernhammer et al. concluiu que este risco era 2.3 vezes mais elevado. Para além da depressão, o abuso de álcool (principalmente em mulheres) e outras substâncias tem vindo a ser associado às mortes por suicídio nos médicos. Há uma escassez de dados relativamente ao papel do ambiente no local de trabalho, outros stressores ou traços específicos de personalidade dos médicos que também possam influenciar este desfecho.

A eliminação do estigma que envolve as doenças mentais é uma prioridade. A existência de atividades extracurriculares (tais como como o yoga) durante o curso de Medicina, assim como apoio psiquiátrico e psicológico gratuito, já são algumas medidas postas em prática no nosso país. No entanto, parece haver uma escassez de recursos quando o curso termina; com o passar do tempo a independência, a responsabilidade e as expectativas do médico aumentam e, com isso, também o seu isolamento. Tudo isto contribui para que os efeitos do estigma sejam também amplificados.

O conhecimento desta realidade é fundamental para a criação de estratégias de prevenção, apoio e tratamento em fases precoces. Só assim será possível melhorar a qualidade de vida dos médicos e, simultaneamente, a qualidade dos cuidados de saúde por estes prestados. Abordar o assunto será o primeiro passo.

Referências Bibliográficas

  1. American Psychiatric Association. DSM 5. American Journal of Psychiatry (2013). doi:10.1176/appi.books.9780890425596.744053
  2. Frank, E. Mortality rates and causes among U.S. physicians. Am. J. Prev. Med. 19, 155–159 (2000).
  3. Kmietowicz, Z. Doctors facing complaints have severe depression and suicidal thoughts, study finds. BMJ 350, h244–h244 (2015).
  4. Mata, D. A. et al. Prevalence of Depression and Depressive Symptoms Among Resident Physicians. JAMA 314, 2373 (2015).
  5. Schernhammer, E. S., Graham, P. H. & Colditz, A. Suicide Rates Among Physicians: A Quantitative and Gender Assessment (Meta-Analysis). Am J Psychiatry 161, (2004).

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