Jornal Médico Grande Público

Cuidados Paliativos e a Medicina Geral e Familiar

Este texto é uma reflexão sobre os Princípios da Medicina Geral e Familiar e dos Cuidados Paliativos, a integração do médico de família na estratégia de cuidados de ambulatório e a importância da comunicação com o doente, sua família e restante equipa prestadora de cuidados.

Atualmente, a Medicina é moldada pela tecnologia, pelos métodos complementares de diagnóstico e pelas “orientações clínicas”. Mas a base do ato médico deve permanecer imutável, deve assentar naquilo que é o mais essencial - a comunicação e a aliança médico-doente. A Medicina Geral e Familiar (MGF) e os Cuidados Paliativos (CP) assentam nesse princípio. A tomada de decisão respeita a autonomia do doente, incorporando as suas expectativas, preferências e opções, e envolve os familiares e/ou cuidadores no plano de cuidados.

O médico de família (MF) tem como premissa a continuidade e longitudinalidade de cuidados. Por esta razão - aliás, reforçada pela realidade demográfica nacional - é necessário que esteja apto para manter a assistência no fim de vida. Deverá estar apto no tratamento da doença avançada e progressiva e deverá responder às necessidades físicas, psíquicas, sociais e espirituais dos doentes e suas famílias.

A prática de MGF assenta em seis competências nucleares: 1. Gestão de cuidados primários; 2. Cuidados centrados na pessoa; 3. Aptidões específicas de resolução de problemas; 4. Abordagem abrangente; 5. Orientação comunitária; 6. Modelação holística. Enquanto Disciplina centrada na pessoa, são essenciais três aspetos de fundo: Contexto - da pessoa, da sua família, comunidade e cultura; Atitude - capacidades, valores e ética do médico; Aspetos científicos - abordagem clínica crítica e atualizada 1 .

Estes pilares espelham também os princípios que regem os CP, evidenciados na prática comunitária de Ian Grant ou nos hospices de Cicely Saunders.2,3 Também a Medicina Paliativa se centra na pessoa e no seu contexto, para prestar cuidados holísticos com rigor metodológico.

Tal como os Cuidados de Saúde Primários, os CP deverão ser equitativos e acessíveis a toda a população. São também cuidados preventivos, porque previnem o sofrimento físico e psicológico associado à doença crónica e terminal, e reduzem o risco de lutos complexos.

A Lei de Bases dos CP vem consagrar o direito e regular o acesso dos cidadãos a estes cuidados (Lei n.º 52/2012 de 5 de setembro). Idealmente, os CP são iniciados no momento do diagnóstico de doença incurável ou grave, e aliam-se a todos os outros tratamentos. Quem melhor que o MF para iniciar estes cuidados?

Nos Cuidados de Saúde Primários a prevalência de doentes com doença incurável e progressiva é alta, por isso a Abordagem Paliativa deve ser transversal a todos os profissionais desta área. O MF deve ser capaz de praticar ações paliativas e intervenções mais estruturadas – os cuidados paliativos generalistas - no acompanhamento dos seus doentes e famílias. Para dar resposta às situações domiciliárias mais complexas, tem sido estimulada a implementação de Equipas Comunitárias de Suporte em Cuidados Paliativos. Estas equipas podem – e devem - integrar médicos de MGF com formação avançada em CP.

É notório que os princípios da filosofia paliativista são em muito similares aos princípios da MGF, confluindo na comunicação com o doente, sua família e interpares. Se o MF tem a vantagem de ter já a perícia da comunicação, é necessário que haja mais formação noutros domínios, como no plano de cuidados em fim de vida, no controlo de sintomas, na gestão de expetativas realistas e na conferência familiar.

Tal como descrito no Plano Estratégico para o Desenvolvimento dos Cuidados Paliativos, “é hoje internacionalmente reconhecido que, quando aplicados precocemente, os Cuidados Paliativos trazem benefícios para os doentes e suas famílias, diminuindo a carga sintomática dos pacientes e a sobrecarga dos familiares. Para além disso, diminuem os tempos de internamento hospitalar, os reinternamentos, a futilidade terapêutica, o recurso aos serviços de urgência e aos cuidados intensivos e, consequentemente, diminuem os custos em saúde”4.

A formação e a atuação em CP é, por isso, um imperativo técnico e ético do médico de família.

 

        Bibliografia:

  1. A Definição Europeia de Medicina Geral E Familiar, Wonca Europa 2002. Disponível em: http://www.woncaeurope.org/sites/default/files/documents/European%20Definition%20in%20Portuguese.pdf
  2. Grant I. Care of the dying. Br Med J. 1957 Dec 28;2(5060):1539-40.
  3. Saunders C. Hospice: a global network. J R Soc Med. 2002 Sep;95(9):468.
  4. Plano Estratégico para o Desenvolvimento dos Cuidados Paliativos para o biénio 2017-2018. Disponível em: https://www.sns.gov.pt/wp-content/uploads/2016/09/Plano-Estrat%C3%A9gico-CP_2017-2018-1.pdf

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