Jornal Médico Grande Público

Reconciliação terapêutica – Perda de tempo ou ganho em saúde?
DATA
19/10/2018 09:40:01
AUTOR
Joana C. Silva e Pedro Figueira
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Reconciliação terapêutica – Perda de tempo ou ganho em saúde?

Doente com alta hospitalar há dois dias por acidente vascular cerebral (AVC). Na consulta de Medicina Geral e Familiar (MGF), traz nota de alta onde consta “À medicação habitual acrescenta atorvastatina 20mg”. Tudo estaria bem, não fizesse já parte da sua terapêutica diária um comprimido de rosuvastatina 10mg.

Provavelmente, muitos de nós – médicos – identificamo-nos com este cenário. Mas por ser frequente, será aceitável? Terá o colega responsável pela alta questionado o doente acerca da sua medicação? Não terá tido tempo de verificar os registos informatizados? Saberá o doente identificar a sua medicação? Na admissão hospitalar terá levado consigo a medicação ou o seu guia terapêutico? Terá o seu médico de família (MF) os registos clínicos disponíveis, completos e atualizados? Terá tido o doente a oportunidade de receber informação acerca da importância de se responsabilizar pelas questões que envolvem a sua saúde? Estarão os médicos despertos para a problemática de uma deficiente reconciliação terapêutica?

Segundo a Direção-Geral da Saúde (DGS), reconciliação terapêutica define-se como um processo de análise da terapêutica de um doente sempre que ocorrem alterações na mesma, com o objetivo de evitar discrepâncias, omissões, duplicações ou doses inadequadas, promovendo a adesão à terapêutica e contribuindo para a prevenção de incidentes relacionados com a mesma. Segundo a mesma fonte, 10 a 70% das histórias medicamentosas contêm pelo menos um erro, sendo que 30% desses erros têm o potencial de causar dano ao doente. Mais: 85% das discrepâncias são originadas no processo de recolha da informação sobre a medicação dos doentes. Os pontos críticos em que o risco de erros relacionados com a medicação é mais provável são na admissão e na transição de cuidados entre instituições de saúde.

A reconciliação terapêutica ganhou especial relevância com o envelhecimento populacional, que tem levado a um grande aumento de doentes com múltiplas patologias e, quase inexoravelmente, à polimedicação. A vasta disponibilidade de medicamentos genéricos e o aparecimento de novas classes terapêuticas contribuem também para a crescente importância deste tema. Atualmente, lidamos ainda com o boom dos “medicamentos naturais”, que surgem no mercado como o elixir da imortalidade e que conferem a quem os toma a falsa sensação de segurança e de ausência de efeitos adversos ou de interações medicamentosas. Estes tipos de produtos, pelos riscos que acarretam, devem também ser pesquisados ativamente neste processo de reconciliação terapêutica.

Ao lidar com os problemas de saúde de cada doente de uma forma holística, o MF depara-se, não raras vezes, com fármacos que não foram por si prescritos e que por vezes colidem uns com os outros, quer seja pelos seus efeitos sobreponíveis ou por potenciação de reações adversas. Os doentes são muitas vezes seguidos em múltiplas consultas, por diferentes médicos prescritores, com sistemas de informação que não permitem a integração dos dados numa plataforma comum. Enquanto não conseguirmos utilizar os benefícios da era tecnológica em prol da segurança do doente (e da manutenção das boas práticas em Medicina), o “velho” guia terapêutico em papel talvez tenha ainda um lugar cativo.

A implementação sistemática da reconciliação terapêutica exige a estreita colaboração entre os profissionais de saúde (médicos, enfermeiros e farmacêuticos) e o doente. Para tal, é essencial a definição de procedimentos claros e padronizados pelas administrações das instituições de saúde, bem como apostar numa formação dirigida e continuada aos profissionais para que se mantenha a qualidade deste processo. Em relação ao doente, é fundamental estimular a sua literacia em saúde, tornando-o capaz de fornecer informação cada vez mais útil e fidedigna sobre a sua situação clínica.

Fazendo jus aos princípios de Hipócrates, e para terminar, olhemos para a reconciliação terapêutica como uma arma necessária para assegurar o tratamento adequado dos doentes sem que lhes causemos dano.

Saúde Pública

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