Jornal Médico Grande Público

Refletir e re(valorizar) o termalismo em Portugal

Abordar o tema do termalismo e da Medicina Termal significa refletir sobre o valor e a utilização da água como meio de fornecer cuidados de saúde e bem-estar à população.

Constituindo o elemento central da Medicina Termal, a água mineral natural é, por definição, a água considerada bacteriologicamente própria, com caraterísticas físico-químicas estáveis, de que podem resultar efeitos favoráveis à saúde.

Em Portugal, surgem relatos de utilização de águas com propriedades medicinais desde o período céltico. Porém, o maior desenvolvimento de estabelecimentos balneares surge associado ao Império Romano. Mais tarde, no século XVIII, os destinos termais são redescobertos pela aristocracia, surgindo a época termal. Por exemplo, D. João V usufruiu das termas das Caldas da Rainha durante vários anos, e, posteriormente, a Rainha D. Amélia surge associada às termas de S. Pedro do Sul.

Tendo já concluído a pós-graduação em Climatologia e Hidrologia na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, e com a expetativa da reposição da comparticipação estatal dos tratamentos termais, fizemos uma reflexão sobre algumas questões relacionadas com a hidrologia médica e o termalismo: os benefícios do termalismo na saúde e bem-estar, a investigação e o ensino da hidrologia médica em Portugal.

De facto, a estadia termal constitui uma terapia holística, adotando o termalista uma série de comportamentos que enaltecem o seu bem-estar biopsicossocial, não só pelo contacto com a água mineral natural e pelas suas propriedades terapêuticas, como também pela instituição de rotinas saudáveis e pelo contacto social que estabelece com outros termalistas. Cria-se, assim, um ambiente propício à terapêutica, reabilitação e manutenção da saúde. No âmbito da prevenção, a Medicina Termal tem um papel na redução da cronicidade, agravamento e agudização de várias patologias.

Apesar dos desafios que se colocam ao nível da investigação, e de esta ser ainda escassa, foram relatados os seus efeitos terapêuticos em várias patologias do foro músculo-esquelético, dermatológico, respiratório e digestivo. O termalismo surge, assim, como alternativa ou complemento às terapêuticas farmacológicas ou outras. Antes de se iniciarem as técnicas termais, deverá ser realizada uma avaliação médica cuidada, excluindo contraindicações, que são raras.

Assim, o termalismo constitui um elemento chave para a obtenção de ganhos em saúde e permite economizar recursos, através da realização de técnicas que permitem obter uma reabilitação mais rápida e com menor probabilidade de recorrência, beneficiando, ainda, os termalistas do ambiente termal que fomenta a promoção e a manutenção de estilos de vida saudáveis. 

Assumindo a importância que tem o termalismo, com os ganhos em saúde e a poupança de gastos a que se associa, parece-nos que seria relevante que a cadeira de Hidrologia Médica fosse obrigatória nos cursos de Medicina. De facto, ao nível pré-graduado, apenas surge como uma cadeira opcional do curso de Medicina do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar.  Já ao nível pós-graduado, além do Curso de Pós-Graduação, foi pela primeira vez incluído um estágio opcional de Hidrologia no programa de internato de formação específica de Medicina Física e Reabilitação.

Em conclusão, esperamos que o termalismo faça parte dos cuidados de saúde que oferecemos aos nossos doentes, quer pelos ganhos em saúde já mencionados, quer pela poupança de recursos, obtendo o reconhecimento que merece junto das autoridades governativas, proporcionando um mais fácil acesso às práticas termais.

 

Bibliografia

  • Manual de Boas Práticas dos Estabelecimentos Termais (2009) Associação das Termas de Portugal
  • Pinto-Cantista AP (2008-2010) O termalismo em Portugal. An. de Hidrologia Medica 3:79-107
  • Hipólito-Reis C (2006) Curas elementares: curas termais & etc. em Portugal e na Galiza. Editora da Universidade do Porto

Saúde Pública

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