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Literacia em Saúde

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a literacia em saúde refere-se à competência do indivíduo para aceder, compreender e usar a informação, de forma a promover e manter uma boa saúde individual, familiar e comunitária.1 É influenciada por características individuais, fatores demográficos, psicossociais e culturais. Além disso, é também afetada por experiências prévias com doenças e com o sistema de saúde, bem como por ações de promoção de saúde.2

A baixa literacia em saúde apresenta custos para o indivíduo e para a comunidade, com implicações na qualidade de vida e aumento das despesas individuais e organizacionais.3, 4 Está associada a um aumento de fatores de risco modificáveis para o desenvolvimento de doenças agudas e crónicas, a comportamentos de risco, a baixa adesão aos rastreios populacionais, a erros terapêuticos e consequentemente a taxas de mortalidade mais elevadas.3 O número de consultas nos centros de saúde, os episódios de urgência hospitalar e os internamentos hospitalares aumentam,2-4 quer pela diminuição do estado de saúde, quer pelo desconhecimento dos serviços de prestação de cuidados e dos cuidados necessários a cada condição.

De acordo com o relatório do projeto “Literacia em Saúde em Portugal” (2016), da Fundação Calouste Gulbenkian, Portugal apresenta valores médios nos índices de literacia em saúde (geral, cuidados de saúde, prevenção da doença e promoção da saúde) ligeiramente mais baixos, com a maior diferença ao nível do índice relativo aos cuidados de saúde, quando comparado com outros países envolvidos no estudo europeu (HLS-EU — European Health Literacy Survey).3 Também em Portugal, é entre a população mais idosa que se regista uma maior proporção de pessoas com níveis baixos de literacia em saúde, uma tendência que se inverte quando o nível de escolaridade aumenta.3 O contato direto com profissionais de saúde é a principal fonte de obtenção de informação sobre saúde.3

A baixa literacia em saúde merece, desta forma, uma reflexão, quer pelo impacto na qualidade de vida dos utentes, quer pelos custos inerentes ao Sistema Nacional de Saúde. Para o Ministério da Saúde esta problemática já é uma preocupação, tendo sido contemplada no Plano Nacional de Saúde (PNS) 2012-2016.5 Individualmente, enquanto profissionais de saúde, podemos fazer a diferença, através das consultas, de sessões de educação para saúde, panfletos ou projetos de intervenção, possuindo uma posição privilegiada, em particular ao nível dos cuidados de saúde primários, onde para fazer esta diferença em termos de literacia em saúde, devemos estar especialmente alerta para os grupos muito vulneráveis. Existem vários instrumentos que podemos utilizar e devemos saber gerir nas nossas unidades.

Infelizmente, muitas vezes, estamos limitados pelo tempo de consulta e temos dificuldade em detetar e desmitificar conceitos, disponibilizar informação e conhecimento científico e, consequentemente, melhorar o empowerment do utente na gestão da sua própria saúde, sem nunca negligenciar o contexto em que ele está inserido. Queremos cumprir a agenda que temos estabelecida para aquele utente, bem como a própria agenda do utente, mas provavelmente também deveríamos tentar criar um espaço para desenvolver ativamente esta literacia em saúde. Os projetos de intervenção, as sessões de educação para a saúde, os panfletos e a dinamização de dias comemorativos, como referido, são uma ótima ferramenta e também podem ser desenvolvidos em equipa, de forma a abranger um maior número de utentes com caraterísticas em comum, podendo posteriormente estes aproveitar para partilhar experiências e apresentar dúvidas semelhantes.

Para melhorar a literacia em saúde é necessário um esforço maior que apenas a intervenção ao nível individual, mas esta pode e deve ser um começo neste ensinamento.

Bibliografia:

        1. World Heath Organization. The mandate for health literacy. World Heath Organization; 2016 (Acedido a 23 de setembro de 2017, disponível em: http://www.who.int/healthpromotion/conferences/9gchp/health-literacy/en/).

        2. Sørensen K, Van Den Broucke S, Fullam J, Doyle G, Pelikan J, Slonska Z, et al. Health literacy and public health: a systematic review and integration of definitions and models. BMC Public Health. 2012;12:80.

        3. Pedro AR, Amaral O, Escoval A. Literacia em saúde, dos dados à ação: tradução, validação e aplicação do European Health Literacy Survey em Portugal. Rev Port Saúde Pública. 2016;34(3):259-75

        4. Espanha R, Ávila P, Mendes RV. Relatório Síntese Literacia em Saúde em Portugal. Fundação Calouste Gulbenkian. 2016.

        5. Portugal. Ministério da Saúde. Alto Comissariado da Saúde. Plano Nacional de Saúde 2011-2016: estratégias para a saúde: eixos estratégicos: cidadania em saúde. Lisboa: Alto Comissariado da Saúde. 2010.

Saúde Pública

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